sexta-feira, 10 de novembro de 2017

EUA e China no encontro dos líderes mais poderosos do mundo em Pequim

MACARENA VIDAL LIY

O Presidente chinês chega em um momento de força, enquanto Trump enfrenta queda de popularidade

Um imperador em alta – muito em alta – , e outro em baixa. Nesta quarta-feira, o presidente chinês, Xi Jinping, recentemente reforçado como o líder indiscutível de seu país, e o norte-americano Donald Trump, arrastado por baixos índices de popularidade e por diversos escândalos, deram início em Pequim a uma série de encontros que durará dois dias. É uma visita de altíssima patente: “uma visita de Estado e mais”, descreveu Cui Tiankai, embaixador chinês em Washington. Após um primeiro dia de atividades culturais, na quinta-feira os dois devem falar sobre a Coreia do Norte, comércio, o Mar do Sul da China e toda uma gama de assuntos para dar forma à relação bilateral mais importante do mundo.

A “mais do que uma visita de Estado” começou na Cidade Proibida, a antiga residência imperial chinesa, onde Xi e sua mulher, Peng Liyuan, receberam o casal Trump e assistiram juntos a um espetáculo de ópera tradicional. Um gesto para reforçar a relação especial entre os dois presidentes, já que normalmente os chefes de Estado são recebidos no formal Grande Salão do Povo.

Os dois líderes têm uma boa relação pessoal. Trump, que tem um fraco por líderes autoritários, se desfez em elogios sobre seu homólogo chinês, a quem cumprimentou por sua “elevação” no 19o Congresso do Partido Comunista, realizado há duas semanas. E Xi, disse, “me considera um amigo”. Os dois compartilham de uma visão semelhante: se um quer “tornar a América grande outra vez”, o outro quer transformar em realidade “o sonho chinês do rejuvenescimento da nação”.

Ainda que ambos se encontrem em momentos distintos. Trump realiza seu primeiro giro pela Ásia sob o peso de sua baixa popularidade em casa, do escândalo em torno da influência russa nas eleições que o levaram à Presidência – e que completam um ano enquanto ele está em Pequim -, e agora, do recente tiroteio em uma igreja do Texas, que deixou pelo menos 26 mortos. Sua visão de fazer seu país voltar a ser grandioso passa por um retrocesso dentro de suas fronteiras.

Já Xi foi alçado como o líder com mais poder em seu país desde os tempos de Mao Tsé-Tung. A China está em alta e, segundo foi apresentado no Congresso do Partido Comunista, seu plano é torná-la uma grande potência, com aspirações de liderança mundial e uma presença muito maior no cenário internacional a partir de agora. “Não buscaremos a hegemonia militar nem econômica, não haverá imperialismo, mas não cederemos naquilo que afetar nossa soberania, segurança ou desenvolvimento, nossos interesses básicos”, explica Li Yongcheng, da Universidade de Estudos Internacionais em Pequim.

As conversas entre a China e os Estados Unidos prometem ser substanciosas. A Coreia do Norte será o assunto dominante. Os chineses, grandes aliados de Pyongyang, moveram suas peças nos últimos meses: votaram a favor de novas sanções contra o regime de Kim Jong-un e ordenou o fechamento de empresas norte-coreanas em seu território.

Trump acaba de declarar que Xi “ajudou muito”. “Veremos logo o quanto ele ajudou”, disse. Mas a Casa Branca também ressalta que ainda há transações comerciais entre a China e seu vizinho; e Pequim não parece disposta a pressionar muito mais do que já fez.

O comércio bilateral será outro dos grandes assuntos a abordar. Em várias ocasiões, o presidente norte-americano lamentou o que, em sua opinião, é uma “relação claramente desequilibrada a favor de Pequim”. “Nosso déficit é enorme”, repetiu ele em Tóquio, na segunda-feira. Ele defendeu que um acordo “tem que ser recíproco”. Para Washington, a China precisa oferecer igualdade de condições às empresas e instituições dos Estados Unidos. “Não é só o déficit comercial, mas também realmente a imensa desigualdade de condições, a transferência forçada de tecnologia para as empresas norte-americanas e muitas outras coisas”, recordou um alto funcionário do governo Trump antes de sua chegada à capital chinesa.

Os dois países assinarão vários acordos comerciais, em um valor da ordem de bilhões de dólares. Apesar disso, especialistas duvidam de que se adotem medidas substanciais ou que a China queira ceder no que exigem os Estados Unidos: “A China está disposta a assinar todos os acordos comerciais do mundo, desde que não se metam na política industrial e no tipo de questões de acesso ao mercado que querem evitar”, afirmou Christopher Johnson, do Centro de Relações Internacionais Estratégicas (CSIS), em uma reunião com jornalistas em Washington.

Também deve vir à tona outro assunto delicado na relação bilateral: as reivindicações territoriais da China em seu mar meridional. Com a chegada ao poder de Rodrigo Duterte nas Filipinas, as disputas de soberania nessas águas se acalmaram. Apesar disso, sob Trump, os Estados Unidos continuaram realizando patrulhas nas imediações de ilhotas que os chineses declaram como suas. Essa atitude dos norte-americanos causa uma profunda irritação na China.

Não está claro até que ponto Trump levantará a questão dos direitos humanos, tradicionalmente um dos pontos de discórdia entre Washington e Pequim. Um grupo de escritores estrangeiros – de Margaret Atwood e Chimamanda Adichie a Philip Roth – pediu em uma carta que o presidente norte-americano interceda por Liu Xia, viúva de Liu Xiaobo, ganhador do prêmio Nobel da Paz morto em cativeiro. Ninguém voltou a vê-la desde o funeral do marido.

A Casa Branca afirmou que Trump fará o que quiser e usará as redes sociais quando bem entender. “Ele vai tuitar o que quiser. É sua maneira de se comunicar diretamente com o povo norte-americano. Por que não?”, declarou a jornalistas o alto funcionário que acompanha o chefe de Estado nesta viagem. “Estou seguro de que neste avião temos equipamento suficiente para fazer isso acontecer”.

Pouco antes das 22h30 (12h30 em Brasília), Trump tuitou uma mensagem de agradecimento ao presidente Xi e à primeira-dama, Peng Liyuan.

EL PAÍS

Nenhum comentário: