quarta-feira, 24 de abril de 2019

'Aceitamos US$ 3.500 para casar nossa filha de cinco anos'

Inayatulhaq Yasini e Swaminathan Natarajan

Nazanin ficou noiva aos cinco anos de idade. Quando ela fez dez anos, já era esposa. A família do seu marido de 12 anos a havia comprado por US$ 3.500 (cerca de R$ 14 mil em valores atuais) seis anos atrás.

Seus pais a venderam para levantar fundos para pagar o tratamento médico de um filho doente.

"A dor do meu filho era insuportável. Quando olhava para o rosto dele, pensava que tínhamos de arrumar o dinheiro. O pai da Nazanin estava relutante, mas eu convenci meu marido a aceitar o dinheiro em troca da nossa filha", diz a mãe, que vive num campo de refugiados no oeste do Afeganistão.
A mãe e o pai de Nazanin têm sete filhos - três meninas e quatro meninos. Eles não estudaram e não sabem ler. Eles não têm dinheiro, nem trabalho.
Inayatulhaq Yasini, do Serviço Mundial da BBC, falou com eles sobre a decisão de vender a filha.
Num esforço desesperado para salvar o filho, a família decidiu entregar a filha.
"Eu aceitei o dinheiro e aceitei dar minha filha mais velha. Mas meu filho não se recuperou e não pude ficar com minha filha", diz a mãe.
"Se alguém vende um filho é claro que há arrependimentos. Eu tenho, mas não adianta nada", diz o pai.

Casamento de crianças
No Afeganistão, a idade legal para casamento é de 16 anos para meninas e 18 para meninos. Mas muita gente se casa antes disso.
De acordo com um relatório de 2018 do Unicef, 35% das meninas afegãs são casadas aos 18 e 9% se casam antes dos 15.
Entre outros países, o Níger tem o pior desempenho, com 76% das meninas se casando antes dos 18. Em Bangladesh, que viveu um grande progresso econômico nos últimos anos, o dado é de 59%, segundo o relatório.

'Preço de noiva'
O Afeganistão sofreu por décadas com guerras e, mais recentemente, uma seca terrível. Por consequência, a perspectiva de emprego é ruim para muitas famílias.
"No nosso costume tribal, não é um problema ou um tabu fazer um acordo de casamento, mesmo com crianças pequenas. Mas muitos só casariam as filhas aos 18", diz a mãe.
De acordo com a lei islâmica, o noivo tem de dar um presente à noiva - em geral, dinheiro - quando é feito o contrato do casamento. Isso é conhecido como Mehr.
Mas além do Mehr, o pai da noiva ou o irmão mais velho podem tentar obter dinheiro da família do noivo - o "preço de noiva" - antes do casamento.
Pedir esse dinheiro é uma tradição afegã, sem fundamento na lei islâmica, segundo Faizal Muzhary, pesquisador da Afghanistan Analysts Network.
O dinheiro cobrado depende de vários fatores, como o status da família, beleza, idade e nível educacional da menina. Pode ir desde algumas centenas de dólares até dezenas de milhares.
Num país com PIB anual per capita de menos de US$ 600, esse dinheiro pode fazer toda a diferença para algumas famílias.

Seca
A família de Nazanin foi atingida por uma seca que tomou grande parte do Afeganistão em 2018.
"Tínhamos plantações e algumas criações de gado. Mas tivemos que largar tudo", diz o pai.
Os animais morreram desidratados, a família abandonou seu vilarejo e se mudou para o campo de refugiados.
De acordo com a ONU, 275.000 pessoas foram desalojadas no oeste do Afeganistão devido à seca. Muitas agências locais e internacionais estão dando apoio, mas o pai de Nazanin diz que ainda falta muita coisa.
Presos numa espiral de dívidas, o futuro do casal e das outras duas filhas, que têm menos de 10 anos, é incerto.
"Se continuar na miséria e alguém oferecer dinheiro pelas minhas filhas, faria o mesmo com elas. As pessoas de quem peguei dinheiro emprestado me ligam várias vezes por dia cobrando", diz o pai.
"Minhas filhas são o único ativo que tenho."

Casamento infeliz
Forçados a deixar seu lar, eles optaram por fazer um casamento rápido para reduzir gastos.
Quando Nazanin fez 10 anos, a família organizou a cerimônia, que teve mais de cem convidados.
"Eu dei o que pude à minha filha. O dinheiro do casamento não era tanto", diz o pai.
Mas passou longe de ser uma ocasião feliz.
"Se não fosse o desespero, não optaria pelo casamento dela, juro que não, mas precisava do dinheiro", diz ele.
"O que poderia fazer? Era minha única opção. Não estou só - muitos outros já fizeram isso."

Grupo vulnerável
Um relatório de 2015 do Conselho Norueguês de Refugiados diz que mulheres desalojadas e meninas que vivem em assentamentos informais em áreas urbanas estão especialmente vulneráveis a serem obrigadas a casar com homens mais velhos, que têm mais dinheiro para pagar o 'preço de noiva'.
Mas Nazanin, que tem 11, não se casou com um homem mais velho, pelo menos.
"Ela ficou dois meses na casa dos sogros. Eles a trataram como sua filha. Seu marido tem uns 12 anos. Ele também é tímido e não fala muito", diz a mãe.

Sem consentimento
Nazanin nunca foi consultada sobre seu casamento. Sua mãe e pai não explicaram a ela os papéis e as responsabilidades da vida de casada e, claro, Nazanin teve dificuldade de se adaptar.
"Pedimos que deixassem nossa filha ficar conosco mais uns anos", diz a mãe.
Nazanin agora voltou a morar com seus pais. Seus sogros prometeram pegá-la de volta quando estiver um pouco maior, em dois ou três anos.
"Ela não sabe lidar com os sogros e o marido porque é muito nova", diz o pai.

Aumento no casamento de crianças
O Unicef diz que 161 casamentos infantis ocorreram naquela região entre julho e outubro do ano passado. Desses, 155 eram meninas e seis, meninos.
"O casamento de crianças é uma norma social tradicional em algumas partes do país. A situação é piorada pela guerra e pela seca", diz a chefe de comunicação do Unicef no Afeganistão, Alison Parker.
"De julho a outubro houve um aumento drástico desses casamentos. Mas, desde então, houve forte intervenção do governo, o que resultou numa redução grande."
O governo afegão lançou uma ambiciosa campanha para acabar com os casamentos de crianças e casamentos forçados. Uma lei que aumenta a idade mínima de casamentos de meninas para 18 anos está tramitando no Parlamento.

Ajuda humanitária
Agências de ajuda humanitária estão tentando melhorar a vida das pessoas desalojadas.
"Quatro décadas de guerra civil destruíram as estruturas sociais básicas que você encontra em outros países. Em várias partes do país a população rural não tem acesso a crédito. É um ambiente volátil e ninguém está disposto a investir", diz Alfred Mutiti, do Unicef.
"A maioria das famílias desalojadas tem dívidas altas. Não conseguem pagar empréstimos. Mesmo se dermos dinheiro, não vai ajudar, será uma gota no oceano", diz ele.

Esperteza
No acampamento, a família de Nazanin ainda espera receber ajuda do governo ou das agências humanitárias. A única luz no fim do túnel é o fato de que há oportunidades educacionais.
Os pais dela têm orgulho do fato de que a filha mais velha sabe escrever o próprio nome e o do pai.
"Nazanin é esperta, conhece o alfabeto", diz a mãe.
Dois dos filhos estão estudando.

Esperança
Mas a família está longe de estar feliz e diz que não tem ninguém para apoiá-los. Isso chateou a jovem noiva.
"Nazanin me diz: 'mãe, você me casou muito nova, mas meu irmão continua doente'. Mas ela também diz: 'meu irmão vai se recuperar e eu vou crescer'. Eu lamento ter casado ela, mas ainda tenho esperança de um futuro melhor", diz a mãe.

(O nome de Nazanin foi alterado)

BBC World Service

terça-feira, 23 de abril de 2019

Bolsonaro e Macri atuam por Mercosul com mais negócios e menos à esquerda

FEDERICO R. MOLINA - AFONSO BENITES

Presidentes fazem campanha, lenta porém persistente, de limpeza “ideológica” no bloco e avançam sobre a ideia de que é preciso recuperar o espírito comercial que lhe deu origem

O Mercosul muda. Ou pelo menos é isso que tentam seus membros, à frente de uma campanha lenta, mas persistente de limpeza “ideológica”, como a chamam. O bloco que une Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai está alinhado à mudança regional à direita iniciada por Mauricio Macri em Buenos Aires e completada por Jair Bolsonaro em Brasília. Já não há espaço para a política dentro do bloco e a sobrevivência, dizem, depende de um retorno ao espírito comercial que deu origem ao Mercosul nos anos 90.

Na semana que passou, o Paraguai anunciou que já não haverá eleição direta de deputados no Parlamento do Mercosul (Parlasur), o órgão legislativo do bloco, criado em 2006. Os atuais serão substituídos no final de seus mandados por congressistas nacionais, que só receberão uma ajuda de custo por seu trabalho extra. A ideia é economizar dinheiro, mas também limitar um órgão de discussão que nem sempre responde às ordens dos Executivos. “A Argentina e o Brasil (as duas principais economias do bloco) veem que o Mercosul nasceu como um projeto de integração econômica e foi paulatinamente se transformando em um projeto de cooperação política. O que estamos vendo é uma tentativa de despolitizar o Mercosul”, diz o argentino Federico Merke, diretor dos cursos de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de San Andrés.

O Mercosul olha agora para a Aliança do Pacífico, o bloco comercial integrado por Chile, Colômbia, Peru e México. Sem estruturas fixas e pouca burocracia, é o modelo a seguir. A marca que o Mercosul recebeu dos Governos de esquerda que dominaram a região durante a década passada é vista agora como um lastro ao desenvolvimento econômico dos membros. “Atualizar o Mercosul significa diminuir seus custos, flexibilizar as regras para negociar acordos comerciais, ou seja, que os países participantes possam assinar acordos com terceiros de forma individual, e chegar afinal, em algum momento, em um acordo de comércio com a União Europeia”, diz Merke. Esse acordo, hoje paralisado, é o cimento que atualmente mantém o bloco unido. Se fracassar, explodirão as demandas internas por mais liberdade para negociações bilaterais, algo que as regras atuais proíbem sem a aprovação dos outros membros.

Para o deputado argentino Daniel Filmus, ex-legislador do Parlasur e ex-ministro de Educação de Cristina Kirchner, o novo perfil do Mercosul esconde uma mudança muito mais profunda de política exterior regional. “Há uma decisão política de submeter-se aos desígnios dos países centrais, que não querem que exista uma articulação política entre os países latino-americanos, porque quando agimos em conjunto temos mais capacidade de incidir nas decisões”, diz. As reformas dependerão, em grande parte, mais do Brasil do que da Argentina, uma questão de acordo com o tamanho de cada país. Mas em Brasília as coisas não estão tão claras como parece.
Em sua campanha eleitoral e em seus primeiros atos como presidente, Bolsonaro indicou que daria um peso menor ao bloco econômico. Sua intenção, e principalmente a de seu ministro da Economia, Paulo Guedes, é fortalecer laços com países ricos, como os Estados Unidos. Uma das ideias é que o Brasil reforce seu papel como um exportador de commodities  (que seguem para China e EUA, por exemplo) do que como um produtor de itens industrializados (sapatos, carros, etc, que seguem para os países vizinhos). A realidade econômica, entretanto, já começa a impor limitações a esses planos. “Diante da impossibilidade de superar um crescimento baixo da economia, transformar o Mercosul já não é viável. O Mercosul é um porto seguro para o Brasil”, diz o historiador Virgilio Caixeta Arraes, professor e pesquisador do Núcleo de Estudos do Mercosul da Universidade de Brasília (UnB).

Em 2018, o Brasil cresceu 1,1% e a previsão para 2019 é que fique perto de 2%. Quase uma parada. Por outro lado, o país negociou no ano passado, entre importações e exportações, 34 bilhões de dólares (133 bilhões de reais) com seus quatro parceiros. O número equivale a 45% do que o Brasil negocia com os 28 países da União Europeia. A importância comercial do Mercosul é parecida para os outros membros. Um relatório da CEPAL, apresentado em dezembro, estabeleceu que quase 60% do total das exportações e aproximadamente dois terços das importações realizadas pelo Mercosul na região ocorrem dentro do próprio bloco. Não deve surpreender então que dois diplomatas que trabalham com integração regional no Ministério das Relações Exteriores do Brasil relatem ao EL PAÍS que a ordem interna é continuar investindo no bloco, apesar dos discursos do presidente. “Temos diversos negócios com os argentinos que não podem ser ignorados. Muitos produtores e industriais daqui dependem dos de lá e vice-versa”, afirmou um membro do corpo diplomático.

De acordo com os dois diplomatas, quando o Brasil assumir a presidência temporária do bloco, no segundo semestre deste ano, deverá reforçar a proposta de flexibilizar as regras de negociação com outros países. A dúvida a médio prazo continua sendo o acordo Mercosul – União Europeia, que se encontra paralisado. “Tanto para Macri como pra Bolsonaro, se o Mercosul serve para alguma coisa é para assinar um acordo com a Europa. Se não serve para isso então façamos outra coisa, dizem”, afirma Merke. Pelo menos por enquanto, as urgências domésticas parecem estar acima das estratégias globais de integração.

Jornal “El País”