quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

POR FALAR EM DEUS



Percival Puggina
 
 Você nem se deu conta, mas no breve espaço de sua geração, Deus sumiu do vocabulário corrente no outrora Ocidente cristão e este artigo se torna, digamos assim, fora das expectativas. Junto com o vocábulo, decresceu, também, o persignar-se, o ajoelhar-se, a frequência à missa ou culto, os símbolos religiosos, as confissões, os sinais interiores e exteriores de fé, mesmo entre os que a preservam. Em parcelas crescentes da população desapareceram, igualmente, os esplêndidos benefícios estéticos, éticos e espirituais da transcendência, alcançáveis por aqueles que se elevando acima dos imanentes rochedos, tendo olhos para o infinito, conheceram e desenvolveram a dimensão espiritual, superior e eterna de sua natureza.
Um dos objetivos centrais da guerra cultural empreendida pelo movimento totalitário e pelo moderno globalismo consiste em constranger o cristianismo ao silêncio, fazer com que a mensagem cristã não encontre eco nem repercuta na vida das pessoas e das sociedades políticas. Quem conduz ou segue tal estratégia observa a receita de Marx, cujo modo de preparo adverte que a religião é “o ópio do povo”, e está desatento à de Raymond Aron, para quem o marxismo é “o ópio dos intelectuais”. Fecho com ele. Conheço raros inimigos das religiões em geral e do cristianismo em particular que não sejam marxistas e esforçados coletores nos lixões da história. Nesta última função, incorrem no paradoxo de, por um lado, atribuir a Deus a culpa pelos pecados, erros e burrice dos homens; por outro, isentar Marx e o marxismo de toda a desgraceira que trouxeram à humanidade.

É claro que isso não tem graça alguma. Que o digam os chineses ainda hoje perseguidos por cultuarem o mesmo Deus que o Ocidente estabeleceu ser socialmente inconveniente e politicamente incorreto. Que o digam os milhões de cristãos e judeus vitimados por revoluções comunistas mundo afora. Que o digam as religiosas estupradas pelo simples motivo de estarem e permanecerem em seus conventos durante as eclosões levadas a cabo em nome dos “altíssimos valores humanos” dos revolucionários da hora. Afinal, a revolução, detentora de incontrastável superioridade moral, tem prerrogativas que a habilitam a toda iniquidade.

No entanto, se olharmos à volta e refletirmos sobre as transformações experimentadas pela sociedade ao longo do tempo, será impossível não contabilizar graves perdas. Bem feitas as contas, se evidenciará, também, o quanto é socialmente benéfico que as condutas humanas sejam mais influenciadas pelo amor a Deus e ao próximo, do que pelo peso das sanções do Estado. É na simultânea perda daquele amor e desse temor que o caos se instala e a criminalidade se expande.

blog do puggina

domingo, 13 de janeiro de 2019

Situação fiscal de estados é preocupante

Editorial 

Governadores recorrem à Justiça para não pagar dívidas e instituem a corrosiva cultura do calote

Uma das faces mais visíveis da crise fiscal histórica por que passa o Estado brasileiro é a Previdência, pelo seu tamanho e por se tratar de um sistema vital para as pessoas. E, nele, atenções estão voltadas para o INSS, do qual recebem aposentadorias e pensões 34 milhões de pessoas, oriundas do mercado de trabalho privado, havendo também um foco na seguridade dos servidores federais, pela capacidade de mobilização de suas diversas categorias e pelas elevadas cifras que recebem. Além do mais, a reforma que for aprovada para assalariados e servidores federais terminará valendo para toda a Federação.

Já quanto à gravidade da situação de cada ente federativo, especialistas alertam para o desequilíbrio de contas estaduais. Há casos notórios como o Rio de Janeiro, abrigado sob um programa de recuperação fiscal assinado com o Tesouro; também Rio Grande do Sul e Minas, este cujas finanças foram devastadas pelo ex-governador Fernando Pimentel, do PT. Há outros.

Chama a atenção que mesmo tendo passado por três rodadas de renegociação de dívidas, estados hajam naufragado em grave crise financeira. O diagnóstico de especialistas é que esta é a prova do descontrole nos gastos de pessoal. Porque está claro que a dívida não explica as maiores dificuldades.

É certo que a indexação de gastos ditos sociais, em que se incluem os previdenciários, cria uma força autônoma de geração de mais despesas nos orçamentos públicos. Mas o Espírito Santo, por exemplo, está submetido às mesmas regras e ainda assim manteve as contas equilibradas. O fato é que não existe, por parte de governadores, vontade política para sanear as contas. Preferem praticar o populismo, gastando mais com salários, aposentadorias e pensões. Pensam só em votos.

De 2016 a 2018, o governo federal já socorreu estados com R$ 80,7 bilhões, e o Tesouro estima mais R$ 154 bilhões de agora a 2022. Dinheiro do contribuinte. Toda esta crise tem servido para expor uma relação perversa entre poderes dentro do Estado, contra os interesses do Erário, e da sociedade como um todo, pois o dinheiro que deveria ir para saúde, educação e obras de infraestrutura vai para gastos com pessoal em estados cujos governos se recusam a se ajustar.

Este circuito de perversidades é formado por políticos inconsequentes, Tribunais de Contas estaduais cooptados que não cobram o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e altas Cortes judiciais que concedem liminares para permitir que governos continuem na clandestinidade fiscal.

Como mostrou o “Jornal Nacional” de quarta-feira, em 2017 o Rio Grande do Sul obteve liminar no Supremo para impedir a União de executar garantias, e até hoje não pagou o devido. Minas, no ano passado, conseguiu o mesmo. E assim vai-se firmando a cultura de que é melhor não pagar dívidas e se socorrer nos tribunais. Junto com as reformas que se aproximam, o costume tem de ser eliminado. Porque não ajuda a estabilizar a economia e ainda espalha insegurança jurídica e fiscal pelo país.

O Globo