ADRIANA
GUARDA
A maior
refianria do mundo custou US$ 6 bilhões, enquanto a Rnest vai sair por US$ 20,1
bilhões
“Foi uma conta de padaria”. A definição foi do então diretor de
Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, tentando justificar a escalada
no custo de implantação da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Suape. Naquela
época, em 2014, o executivo afirmou que a estatal não tinha estimado direito o
investimento na obra. Lançada em 2005 por US$ 2,3 bilhões, a Rnest teve seu
orçamento revisado para os atuais US$ 20,1 bilhões. Com esse valor, entra para
a história como a refinaria mais cara do mundo. Tempos depois da declaração
polêmica, a operação Lava Jato mostraria que para além da “conta de padaria”, a
corrupção foi fator decisivo para inflar o orçamento.
No mapa do refino, a Rnest destoa da realidade mundial de mercado.
Construída na Índia pelo grupo Reliance, a Refinaria de Jamnagar é a maior do
mundo. Com capacidade para processar 1,2 milhão de barris de petróleo por dia
(bpd) e investimento de US$ 6 bilhões, a unidade tem produção cinco vezes maior
que a Abreu e Lima e custou menos de um terço do valor da obra. A unidade
pernambucana foi projetada para processar 230 mil bpd, mas só está autorizada a
produzir 100 mil bpd, porque não concluiu a implantação de equipamentos
exigidos para reduzir a emissão de gases. A diferença também está no cronograma
de execução. Enquanto a Jamnagar ficou pronta em 36 meses, a Rnest está há 10
anos em construção e ainda não foi concluída.
Comparando os custos da refinaria pernambucana com similares no mundo,
a ex-presidente da Petrobras Graça Foster chegou a dizer que a Rnest era um
exemplo a não ser repetido. Enquanto na Abreu e Lima o custo por barril foi
estimado em US$ 87 mil, nenhum outro empreendimento no mundo chega nem perto.
Exemplos: na Índia (US$ 13 mil), China (US$ 14 mil), Coreia do Sul (US$ 18 mil)
e Arábia Saudita (US$ 25 mil).
“A Refinaria Abreu e Lima é um retrato da Petrobras durante a gestão
do PT, em que a empresa foi colocada para ser instrumento de política social e
regional, bem como de arrecadação de campanha via corrupção. Sem corrupção já
se tratava de um mau negócio – da forma como foi conduzido – e com corrupção
virou algo criminoso”, afirma Renato Lima, doutor pelo Massachusetts Institute
os Technology (MIT) e professor da Asia School of Business (ASB), na Malásia.
O especialista também destaca a ingerência política que interferiu nos
custos. “Um exemplo gritante dos custos da Abreu e Lima por pressão política se
dá, em 2007, na decisão de antecipar a operação para meses antes da eleição de
2010 (operar parcialmente em agosto). O Plano de Antecipação da Refinaria
implicou em precário detalhamento das licitações e a própria sinalização, para
os fornecedores, que estavam organizados em um cartel, de que a Petrobras
estava disposta a pagar qualquer valor”, complementa.Investigado pela Polícia
Federal por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro, Paulo Roberto Costa,
um dos primeiro delatores da Lava Jato, chegou a dizer em uma de suas visitas a
Pernambuco, que a refinaria não seria construída a qualquer custo. Na época,
ameaçou realizar licitação internacional para não ceder às empreiteiras
brasileiras. Depois as investigações apontariam o esquema de pagamento de
propina entre o governo e construtoras.
CORRUPÇÃO
A análise de provas da Lava Jato tem feito o Tribunal de Contas da
União (TCU) rever a apuração de prejuízos em obras da Petrobras. A corte refez
os cálculos de superfaturamento, com base em documentos obtidos em quebras de
sigilo de empreiteiras investigadas, e já descobriu desvios até 70% maiores do
que os constatados em auditorias antigas. Na Abreu e Lima, a reavaliação do TCU
apontou um prejuízo 32% maior na Unidade de Destilação Atmosférica (UDA) e de
15% na Unidade de Hidrotratamento de Diesel (UHDT). Essas obras foram tocadas
em conjunto por Odebrecht e OAS, a partir de 2009. As notas fiscais, de 2009,
permitiram achar um sobrepreço de R$ 1,36 bilhão. Corrigido, o valor desviado
chega a R$ 2,1 bilhões. Além desses contratos, outros nove estão sendo revistos
pelo Tribunal.
Sem caixa, depois dos esquemas de corrupção, a Petrobras toca um programa
de desinvestimento para captar recursos. Nesse novo cenário, a diretoria da
estatal afirmou que a conclusão do segundo trem (segunda etapa) da Rnest só
será possível com um sócio. No mercado, circula a informação de que a refinaria
também poderá ser vendida, a exemplo do que aconteceu com a PetroquímicaSuape.
“Comenta-se que a Siponec (companhia chinesa de energia) teria
interesse na sociedade ou na compra da refinaria. Mas é claro que, se
acontecer, essa aquisição se dará pelo preço de mercado e não pelo valor
descabido do investimento, que está desconectado da realidade mundial”, observa
o professor de Engenharia de Petróleo e Gás da DeVry/FBV, Rodrigo da Matta. A
PQS custou de R$ 9 bilhões à Petrobras e foi vendida à mexicana Alpek por R$
1,2 bilhão.
Para atrair um investidor para a refinaria, a Petrobras vai precisar
oferecer mais do que a sociedade na planta de refino. “De modo geral, refinaria
é um negócio de baixa margem, o que gera pouca atratividade econômica. São
investimentos altíssimos de capital com taxa de retorno baixa. Por isso, raros
são os casos de refinarias independentes. Na maioria das vezes, os
proprietários são companhias integradas de petróleo, que tem o controle “do
poço ao posto” porque podem compensar as baixas margens específicas do refino.
Atrair um investidor para a Abreu e Lima sem casar com uma participação também
na cadeia de distribuição (via BR ou outra empresa) é muito difícil”, acredita
Renato Lima.
O JC questionou a Petrobras sobre o custo por barril de
petróleo, orçamento, comparação com outras unidades de refino, parceria e
conclusão do segundo trem, mas só obteve retorno para duas perguntas. A empresa
respondeu que “a entrada em operação da unidade SNOX (responsável pelo
abatimento de emissão de gases na atmosfera) está planejada para junho de 2018,
o que permitirá a operação do trem 1 da refinaria à plena carga. Para a
conclusão do segundo trem de refino, a Petrobras está em busca de parcerias. Os
investimentos relativos ao trem 2, bem como a definição de data de partida,
ainda serão objeto de negociação no âmbito desta parceria”.
JC-Pernambuco
Nenhum comentário:
Postar um comentário