segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

PT – Odebrecht, amor antigo

Rubens Valente

Há mais de 20 anos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-deputado José Dirceu choraram em um encontro nacional do PT quando um militante foi à tribuna para criticar os rumos que a corrente majoritária do partido vinha tomando. No centro da polêmica estavam pagamentos feitos pela Odebrecht ao partido.

A história começou na campanha eleitoral de 1994, quando José Dirceu se lançou ao governo de São Paulo, mas foi derrotado. Após a disputa, a imprensa revelou a lista dos doadores. Naquela época, os financiadores só eram divulgados pela Justiça Eleitoral após o fim da campanha.

Dirceu declarou ter arrecadado R$ 1,1 milhão. Desse total, 42% vieram da Odebrecht e de uma empresa sob seu controle, a CBPO. A empreiteira também doou para as campanhas do PT no Distrito Federal e no Espírito Santo.

A notícia chocou a militância mais à esquerda no partido porque a Odebrecht havia passado por dois escândalos duramente atacados pelo PT– em especial por José Dirceu, na época deputado federal– nas CPIs que investigaram o esquema PC Farias, durante o governo de Fernando Collor, em 1992; e dos Anões do Orçamento, em 1993.

Uma corrente do PT em Brasília tentou até mesmo devolver à empreiteira os R$ 200 mil que a sigla havia recebido. Um dos fundadores do partido, o economista e ex-guerrilheiro Paulo de Tarso Venceslau disse à Folha que soube do próprio Dirceu o quanto o caso Odebrecht o incomodou na época.

"Eu tive reuniões com ele e estava frustradíssimo. Ele dizia que esses recursos da Odebrecht estavam aparecendo na prestação de contas dele, mas que o dinheiro era para a campanha do Lula. A campanha do Dirceu foi usada para fazer a triangulação", disse Venceslau, que contou a mesma história à CPI dos Bingos, em 2006.

Venceslau disse que, no começo de 1995, Dirceu se mostrava disposto a deixar a organização do partido e chegou a procurar um imóvel para montar um escritório de advocacia na companhia de outras duas militantes petistas. Mas ele se acertou com Lula e passou a ser apoiado para a presidência nacional do PT, segundo Venceslau.

"Esse é o maior mistério: como foi esse acordo. É uma coisa que ninguém sabe direito", afirmou o ex-guerrilheiro que, nos anos 1990, denunciou o que ficou conhecido como Caso CPEM.

Considerado o primeiro escândalo do PT, o caso gerou uma investigação conduzida pelo partido sobre Lula e seu compadre, o advogado Roberto Teixeira –hoje, o ex-presidente e Teixeira são réus na Operação Lava Jato.

Meses depois de ficarem conhecidas as doações da Odebrecht para Dirceu, o PT realizou em Guarapari (ES) seu 10º encontro nacional para escolher o novo presidente da sigla. Contra o candidato de Lula –José Dirceu–, estava Hamilton Pereira, apoiado pelo editor e ex-guerrilheiro César Benjamin na corrente "A hora da verdade".

Benjamin foi ao microfone para uma plateia estimada em 500 delegados da sigla de todo o país. Ele denunciou que "parte da campanha" de Dirceu havia sido bancada pela Odebrecht e fez duras críticas à cúpula da legenda por receber de empreiteiras.

A Folha, que acompanhou o encontro, narrou na época que petistas do grupo de Lula e Dirceu "avançaram em direção a Benjamin", enquanto Dirceu chorava, sentado. "Lula também chorou, assim como outros dirigentes." Uma fotografia mostra Dirceu passando o dedo no olho direito enquanto é consolado pelo hoje deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Três dias depois, Benjamin anunciou em artigo publicado pela Folha, que deixaria o PT. "Minha frase sobre a Odebrecht não foi dúbia nem irônica", escreveu.

"Não houve desvio individual de conduta. Tudo decorreu de uma lógica, a das máquinas eleitorais (que, aliás, só no PT, entre os grandes partidos, ainda pode ao menos ser questionada). Dirceu é inocente, mas não o sistema de poder que governa o PT, aliás, com apoio das bases", concluiu Benjamin.


Folha de São Paulo

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