Luiz Carlos Azedo
Os setores que adotam a narrativa do
golpe não estão nem aí para os riscos de um colapso institucional. Querem
apenas desestabilizar o processo
Um
assunto mal resolvido pela esquerda brasileira é a questão democrática. Mesmo o
falecido Carlos Nélson Coutinho, autor de a Democracia como valor universal, um
dos fundadores do PSol, ficou no meio do caminho quando pôs um pé atrás em
relação à democracia representativa. “Nada disso impede, contudo, que na teoria
liberal moderna (que foi inteiramente assimilada pela hodierna
social-democracia) se continue a afirmar que democracia é sinônimo de
pluralismo e que a defesa da hegemonia de uma classe ou conjunto de classes é,
por sua própria natureza, sinônimo de totalitarismo e de despotismo. A teoria
socialista deve criticar a mistificação que se oculta por trás dessa formulação
liberal: deve colocar claramente a questão da hegemonia como questão central de
todo poder de Estado.”
Essa é a
essência do pensamento dos setores de esquerda que insistem em classificar o
impeachment da presidente Dilma Rousseff como um golpe de Estado e, a partir
disso, buscam refúgio político junto à opinião pública. Pouco importa o que
houve de errado, seja na condução da política econômica ou nas políticas
sociais dos governos Lula e Dilma, seja quanto à roubalheira inacreditável que
se instalou na Petrobras, nos fundos de pensão e na administração direta. A
questão central é a luta pelo poder. Fazer autocrítica dos erros seria “dar
munição aos golpistas”, ou seja, àqueles que apoiaram o impeachment. Assumir os
crimes contra o patrimônio público, então, nem pensar. O que importa é passar
uma borracha no passado e transformar essa linha divisória numa retinida da
boia salva-vidas.
Eis a
teoria: à democracia liberal, na qual a burguesia disfarça sua dominação por
meio do “isolamento” e da “neutralidade” da burocracia estatal, deve se
contrapor à “democracia de massas”, na qual uma nova burocracia, de baixo para
cima, exerceria a hegemonia dos trabalhadores, para superação efetiva da
dominação de uma restrita oligarquia monopolista. Como se deu na prática:
conferências, conselhos e outros instrumentos de participação foram instrumentalizados
para cooptar os movimentos sociais e legitimar a aliança da “nova burocracia”,
formada por militantes políticos e sindicalistas, com as oligarquias políticas
e empresas monopolistas, que tomou de assalto as estatais e fundos de pensão e
construiu um pacto perverso para superfaturar contratos de obras e serviços e
financiar a reprodução da sua hegemonia. Em nenhum lugar do mundo a esquerda
praticou uma política tão monopolista, muito menos entregou na bandeja as
políticas sociais universalistas aos grandes interesses privados, para se
locupletar com dinheiro público e sedimentar sua base eleitoral junto aos mais
pobres e desorganizados, numa espécie de neopopulismo.
Impeachment
“Nessa
democracia de massas, a dialética do pluralismo — a autonomia dos sujeitos
políticos coletivos — não anula, antes impõe, a busca constante da unidade
política, a ser construída de baixo para cima, através da obtenção do consenso
majoritário; e essa unidade democraticamente conquistada será o veículo de
expressão da hegemonia dos trabalhadores”, propugnava Coutinho. Aconteceu o
contrário.
Ocorre,
porém, que o Brasil já é uma democracia de massas, com todos os defeitos que
possam existir no nosso sistema eleitoral e partidário. Nosso sistema eleitoral
é o mais eficiente do mundo, com eleições livres e à prova de fraude, cujos
resultados são apurados no mesmo dia da votação. Isso não significa que os
eleitos tenham poderes imperiais, acima da lei. Há mecanismos constitucionais
para coibir os abusos e apear do poder aqueles que não se conduziram de acordo
com as regras do jogo, ou seja, com responsabilidade. O que houve com a
presidente Dilma Rousseff em nada foi diferente do que ocorreu com o presidente
Collor de Mello. Utilizaram-se os mesmos mecanismos para afastá-la do poder,
por decisão do Congresso homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Michel
Temer assumiu o poder porque eleito pelas forças que hoje se arrependem de
tê-lo escolhido para vice-presidente da República. Era o substituto legal da
presidente afastada do poder. Não foi a antiga oposição que o escolheu, embora
agora tenha a obrigação moral de apoiá-lo até as eleições de 2018. Temer
assumiu um país arruinado por uma política econômica desastrosa, comandada por
governantes e empresários temerários, que se achavam acima do bem e do mal.
Mas onde
está o democraticídio? Em primeiro lugar, no fato de que o governo Temer
responde aos mesmos questionamentos que o governo anterior quanto à recessão e
ao desemprego, embora não seja responsável por isso. Em segundo, porque também
sofre as consequências da crise ética, na medida em que avança a Operação
Lava-Jato. Terceiro, porque essa situação estressa as relações entre Executivo,
Legislativo e Judiciário, que precisam tomar decisões complexas e duras em relação
às duas variáveis anteriores. Finalmente, porque os setores que adotam a
narrativa do golpe não estão nem aí para os riscos de um colapso institucional.
Querem apenas desestabilizar o processo, para não ter que explicar seus
próprios erros; em alguns casos, nem pagar pelos crimes que cometeram.
Correio Brasiliense
Nenhum comentário:
Postar um comentário