quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O esquerdismo é apenas um grande vazio

Maurício Mühlmann Erthal

O predomínio da esquerda nas faculdades de humanas se dá fundamentalmente por pura incapacidade dos professores e alunos de compreenderem teorias e pensadores mais complexos. A grande maioria não tem a menor noção do que realmente pensaram ou disseram Hegel, Platão, Kant, Nietzsche, Heidegger e tantos outros verdadeiros pensadores. Os alunos saem da faculdade com o diploma na mão quase sempre tão vazios quanto entraram. Pior, saem confusos.

Expostos a 100 pensadores diferentes, cada qual com 100 teorias diferentes, e também a 100 outros críticos e contestadores que discordam ou até mesmo desprezam os 100 primeiros, só resta aos alunos sentir uma profunda agonia e a total congestão do espírito. Semelhante a produção de patê de foi gras, onde se entope um pato de comida até o seu fígado inchar ao máximo por congestão forçada, o aluno impedido de uma correta digestão de conteúdos profundos, seja por professores medíocres (a grande maioria), seja por limites da inteligência do próprio aluno, sofre o mesmo processo. Aliás, muitas vezes um professor seria mais útil se aconselhasse certos alunos a experimentarem outros cursos.

Os alunos não "escolhem" o marxismo porque é a teoria que melhor responde aos problemas políticos ou explica de forma mais abrangente a realidade, mas porque, além de ser o que é mais oferecido, é o único que a sua inteligência, ou falta dela, consegue captar. E pior, captam errado, pois adotam apenas as partes que servem ao seu inconsciente guiado pelo ódio, ressentimento e inferioridade. Aliás, quase todos sequer lêem os principais teóricos apresentados, são simplesmente levados a 'acreditar' que esses teóricos odeiam as mesmas coisas que eles e os adotam.

O infame Lênin escreveu um livro em que critica o 'esquerdismo', a que chama de "uma doença infantil do comunismo". Lendo este livro vemos que o 'esquerdismo' que Lênin acusa ser mera "doença infantil" ainda está muito acima do 'padrão' do 'esquerdismo' brasileiro. Lênin aponta em seu livro os equívocos de quem ao menos estudou as bases teóricas do movimento mas se equivocou, o que decididamente não é no caso brasileiro.

Com isso não estou supondo ser os 'esquerdismos' europeu ou americano, por exemplo, muito superiores, de forma alguma. O que quero dizer, em princípio, é que o fenômeno do 'esquerdismo' atual não é mais propriamente uma ameaça ideológica, com teorias sérias, bem fundamentadas e bem embasadas, mas antes um fenômeno de psicologia de massa, um fenômeno irracional. Por isso é tão difícil combatê-lo. Suas teorias caducaram há décadas, inclusive as econômicas, mas ainda compõem um vasto arsenal de mentiras usadas por mentes criminosas e mal-intecionadas para manipular uma imensa massa de idiotas ressentidos.

A maior dificuldade em combatê-lo é o fato de não se tratar mais de um fenômeno da razão, mas da "emoção". Nossa linguagem política atual não faz mais referências a uma realidade externa na qual poderíamos testar a validez das idéias, mas reportam-se apenas à sensação de pertencimento a grupos pré-determinados que usam termos identificadores. Por mais que alguém faça uso da construção de um raciocínio 'frio', lógico, claro e embasado nos fatos, a simples identificação de termos contaminados por sentimentos de ódio, por exemplo, impede e destrói toda a comunicação e apenas reforça alguma "senha" de pertencimento a determinado grupo.

Após as três principais tentativas de se estruturar um dos conceitos chave do marxismo, o de "luta de classes", sendo esses o proletariado, estudantes e lumpemproletariado (séc XIX e metade do XX), o seu modelo teórico esgotou-se completamente. O próprio fundamento teórico dos chamados materialismo histórico e materialismo dialético, que embasaram o tal "socialismo científico", podiam enganar alguns intelectuais ignorantes do século XIX, quando da recente implantação do capitalismo industrial, mas atualmente, em um século "quântico", "atômico" e "digital" é impossível!

Tentar corrigir as "injustiças sociais" por meio de uma revolução do proletariado seria impensável atualmente até mesmo para o stalinista mais convicto e fanático, desde que possuidor de alguma cultura, é claro. A tentativa recente, após a queda do muro de Berlim, de deslocar o significado de "classe oprimida" para o planeta, criando um apelativo "marxismo ecológico", pode até parecer para alguns uma solução interessante, mas seduz apenas os idiotas (os que engoliram a farsa Greta Thunberg, por ex.). E de que adiantaria reposicionar este conceito pela quarta vez se agora todo o corpo teórico fundante que o circunscrevia já desmoronou? Vemos inclusive que este 'falso conceito', capitalismo malvado (masculino) versus Pacha Mama (feminino), já foi devidamente apropriado pelos "globalistas", que inclusive há décadas cooptaram e controlam as próprias esquerdas como armas para usá-las na implementação de um governo mundial. E grande parte dos esquerdistas sequer percebe isso devido a sua origem lumpemproletária desprovida de qualquer forma de inteligência e de ânimo ressentido e rancoroso.

Este governo único é visto como uma boa solução político-econômica por alguns grupos muito poderosos. Em tese responderia aos desafios modernos da globalização praticada hoje em sua quase totalidade por um 'falso' capitalismo corporativo-financeiro (metacapitalismo) que precisa, para se mover livremente, eliminar completamente a forma política e as resistências dos Estados-nação, para isso sabotando tudo que os sustentam e lhe dão significação como família, tradições, religiões, fronteiras, etnias, culturas, etc.

(Não custa lembrar que globalização, a integração comercial entre paises, se bem conduzida, é algo bom, mas que o "globalismo" ou governo mundial, seria o maior e pior pesadelo de toda a humanidade. Qualquer hora escreverei mais sobre isso).

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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

VENDAVAIS AO SUL DA AMÉRICA

Fernando Gabeira

Os ventos que sopram na Bolívia e no Chile são surpreendentes para quem se detém apenas em números de crescimento econômico. Tento entendê-los com minhas lembranças antigas e os dois últimos trabalhos que fiz nesses países. E algumas leituras.

Na Bolívia cobri para o Estadão uma crise singular no governo Evo Morales. Um choque com sua própria base de sustentação. O tema era a estrada Atlântico-Pacífico, financiada pelo Brasil. Ela iria atravessar um território indígena e houve grande reação. Cruzaria não apenas o território indígena, mas também o Parque Nacional Isiboro-Secure.

Mas ao longo desse tempo a política econômica de Evo Morales conseguiu grandes índices de crescimento e reduziu a pobreza, incluída a extrema pobreza. A política ambiental nunca foi muito bem. Lagos secando e um tratamento leviano com as queimadas, que acabaram se tornando um drama nacional neste ano.

Quando vejo o desenrolar da experiência do Movimento ao Socialismo, acabo suspeitando de que as variáveis econômicas e ambientais foram secundárias como estopim. O nó estava na política, na vontade de Evo Morales se perpetuar no poder. A Constituição não permitia. Ele fez um referendo em 21 de fevereiro de 2016. Perdeu e, em seguida, ganhou no tapetão da Justiça Eleitoral e da Suprema Corte. Isso ficou engasgado na garganta dos eleitores.

Baseio-me no relato de repórteres que cobriram a campanha de Evo. Registraram gritos de “o povo disse não” quando ele passava.

Vieram as eleições, a súbita suspensão das apurações, laudo da OEA denunciando irregularidades. Quando Evo aceitou uma nova eleição, era tarde. A polícia já havia cruzado os braços, o Exército pediu sua renúncia, como o fez com Sánchez de Lozada no passado.

Lembro-me, no exílio, de que a Bolívia representava para nós um símbolo de instabilidade. Quando os bolivianos voltaram um pouco antes de nós para seu país de origem, costumávamos brincar: levem o carnê mensal do metrô, pois podem ter de voltar antes do fim do mês.

Agora é com tristeza que vejo o país mergulhar de novo na instabilidade. Alguns temas do passado afloram de novo, como a tensão entre brancos e indígenas, com lances racistas e violência nas ruas. Apoiadores de Evo Morales achavam que ele era o único capaz de unir um país dividido. Não o foi para sempre. E certamente perdeu essa condição no referendo. A outra parte se sentiu lograda, daí os gritos de “não somos imbecis!” nas manifestações.

Fui ao Chile, também pelo Estadão, para cobrir uma revolta estudantil. Uma das muitas, mas essa mais longa. Também com base nessa experiência, compreendi como era importante para os chilenos uma educação gratuita de qualidade. Apesar dos arroubos da juventude, o movimento estudantil tinha o apoio de grande parte da sociedade. Quando ouço dizer que o Brasil terá algo como no Chile, a primeira coisa que me vem à mente é a diferença entre os movimentos estudantis chileno e brasileiro. E ainda há a precária situação dos aposentados.

Não quero dizer que o Brasil não tenha problemas, apenas que são situações diferentes. No Chile houve uma fermentação na sociedade e uma revolta, guardados proporções e contextos, com características parecidas com o que aconteceu no Brasil em 2013.

Isso é o que me leva a afirmar como é vazia essa discussão sobre exortar os brasileiros a se rebelarem como no Chile e as ameaças de Lei de Segurança Nacional, AI-5 e outras maneiras de endurecer. Na minha opinião, tanto o líder que conclama como os que o ameaçam com a punição trabalham com a falsa ideia de que esses movimentos nascem de cima para baixo, não dependem de uma voz de comando nem mesmo do sistema partidário.

Na minha opinião, repito a fórmula, porque não quero envolver ninguém nessa fórmula, os ventos que sacodem a América do Sul refletem um grave desequilíbrio, que, por sua vez, nasce em algo maior: as ilusões do socialismo e do liberalismo.

O modelo econômico boliviano começava a declinar, o déficit subia, era evidente a necessidade de um reajuste que vai abalar a taxa de investimento. No caso chileno, uma visão radical do liberalismo com pouca sensibilidade social. Em governos de esquerda como o da Venezuela, uma irracionalidade econômica gritante.

Integrar racionalidade econômica e sensibilidade social e ambiental é um desafio. Mesmo porque é um programa aparentemente modesto, poucas chances de empolgar as massas ou produzir um líder popular. Mas a julgar pela experiência de outros países, como Portugal, com toda a sua modéstia, a coisa parece funcionar.

Aqui a cena está dominada por sonhadores, glorificando o Estado ou o mercado com ideias acabadas sobre nosso futuro, quase sempre incomodados com a democracia quando ela entra em choque com seus sonhos. Vivemos muito nessa atmosfera onírica. Acontece um desastre, discutimos se o óleo é de esquerda ou de direita, em vez de conjugar esforços nas ações de emergência.

Um caminho que talvez nos ajudasse seria examinar, de forma mais profunda do que fiz aqui, os erros e acertos que levaram às crises da Bolívia e do Chile. Mas como fazer isso, se os lados já têm uma explicação antecipada para os fatos? Já tentei me aproximar disso no passado, imaginando os bolcheviques derrotados em Paris culpando seus adversários ou os alemães reclamando que o Muro de Berlim não caiu porque os comunistas não deixaram.

Apesar de todas as porradas que vêm dos extremos, o esforço para entender ainda anima muita gente. Dizem que a fé move montanhas, mas para quem tem expectativas mais modestas não há saída exceto analisar com alguma frieza, reconhecendo que, ao menos na nossa América, a realidade costuma atropelar os sonhos.

Bolívia e Chile nos passam uma complexa lição de casa. É preciso decifrá-la antes que nos devore.

Estadão