sábado, 25 de agosto de 2018

Nova moeda da Venezuela despenca nos primeiros dias

ALONSO MOLEIRO

Vários empresários foram detidos sob a acusação de aumentar os preços depois da reforma econômica

Prestes a completar-se uma semana das medidas econômicas adotadas pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, a cotação do chamado bolívar soberano, fixada em 60 unidades por dólar depois da reforma que tirou cinco zeros da moeda local, continuou se depreciando nos mercados secundários. Em alguns índices de referência, o dólar era negociado a 90 bolívares, e em outros chegou a 120. Ou seja, uma desvalorização próxima de 50%, somando-se à de 96% que foi oficialmente reconhecida com o lançamento da nova moeda.

“A reação inicial do mercado foi ruim. A pressão especuladora sobre o dólar continua”, opina Víctor Álvarez, economista, ganhador do prêmio nacional de Ciências e ministro interino nos tempos do ex-presidente Hugo Chávez.
O nervosismo dos mercados continua empurrando os preços para cima. O Governo de Maduro está decidido a impor suas decisões pela razão ou pela força, e por isso publicou uma tabela de preços de 25 produtos da cesta básica de consumo. A nova norma obriga, mediante um pacto, os empresários e produtores a respeitarem e divulgarem esses preços. “Os acordos de preços não são acordos”, afirma Álvarez, “nesse nível não é possível nem cobrir custos, e isso pode causar um recrudescimento da escassez e da inflação”.

Na quarta-feira, 22, enquanto continuava a confusão sobre o uso do bolívar soberano, a Polícia Nacional Bolivariana deteve Alejandro Quintana e Graziano La Rosa, gerentes da loja PlanSuárez, em Caracas, acusados de esconder estoques e calcular fraudulentamente os preços no novo bolívar. Maduro já tinha advertido aos comerciantes que quem não respeitasse os preços tabelados seria preso.

As operações de controle de preços são realizadas pela Superintendência Nacional para a Defesa dos Direitos Socioeconômicos (Sundde). Seu presidente, William Contreras, lamentou que algumas redes farmacêuticas, como Farmatodo e Farmahorro, estejam fazendo cálculos incorretos do valor do novo bolívar e prometeu investigá-las. Não é a primeira vez que o Estado adota esse tipo de práticas punitivas: nos últimos anos, executivos da rede de varejo Dia a Dia foram acusados de especulação, enviados à prisão durante alguns meses e posteriormente liberados com alguma medida judicial substitutiva.

Ao mesmo tempo, o procurador-geral Tarek William Saab mostrou sua disposição de colaborar com o Poder Executivo na penalização do que as autoridades chamam de “delitos econômicos”. Ele encarregou mais de 100 promotores em todo o país de ajudarem a Polícia e a Guarda Nacional na defesa dos preços tabelados.

A nova lista deixa a cesta básica com um custo total de 117.000 bolívares soberanos. O quilo de carne, por exemplo, foi fixado em 90 bolívares, um preço semelhante ao que tinha com o velho bolívar. O leite pasteurizado e a caixa com 30 ovos passam a custar respectivamente 48 e 81 bolívares soberanos.

Francisco Rodríguez, presidente da firma Torino Capital, considera que “este projeto tem sérios problemas de credibilidade: sai de um Governo que há anos vem imprimindo dinheiro sem respaldo e que produziu severas distorções fiscais e orçamentárias. O Governo promete disciplina fiscal, mas poucos acreditam nele”. Os especialistas consultados concordam que “há poucas razões para que os atores econômicos sejam otimistas”.

Restrições à compra de divisas
“Há um elemento que conspira contra o plano de Maduro: foram mantidas algumas restrições à aquisição de divisas”, afirma Rodríguez. “Em qualquer esquema de estabilização onde a taxa de câmbio desempenhe um papel para realinhar as expectativas é preciso haver livre convertibilidade.”

O Governo autorizou a compra e venda de moeda estrangeira sem intermediários, mas impôs limites claros aos seus montantes, mediante leilões e atribuições. Rodríguez considera que os níveis de escassez atual – um pouco atenuados com relação há alguns meses atrás – vão se manter.

O descontrole cambial e a consolidação de expectativas negativas (consequência dos novos aumentos de preços) estão inscritos no fenômeno que, dentro da interpretação do chavismo, denominou-se “guerra econômica da burguesia".

EL PAÍS


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Mercados põem em xeque a política econômica de Erdogan

Editorial

A Turquia é o novo epicentro da onda de turbulências que sacode as moedas dos países emergentes e também o euro. As quedas violentas da lira têm como ingredientes uma política expansionista que superaqueceu a economia, jogou a inflação para o alto, ampliou excessivamente o endividamento privado em moeda estrangeira e as interferências cada vez mais discricionárias do agora presidente Recep Erdogan, que se apoderou do Banco Central e pôs seu genro como ministro das Finanças. A pausa para descanso no ataque à lira, ontem, não decorre de nenhuma ação decisiva do governo para estancar a depreciação, de 40% no ano.

Pelo canal econômico, a Turquia praticamente não têm relações com os demais países emergentes. A instabilidade que os tombos da lira causam vem por meio do reordenamento de portfólios dos investidores globais, que captaram mais um sinal para fugir dos ativos de risco. Nesse movimento, atingiram mais uma vez a Argentina, que elevou sua taxa de juros para 45%, o Brasil, África do Sul, Rússia e Índia. Pelo canal financeiro, a mega desvalorização da moeda atingiu os bancos e empresas turcas, seus sócios e credores europeus, com o espanhol BBVA, o francês BNP Paribas e o italiano UniCredit.

Por envolver a maior instituição financeira da Itália, que tem sistema bancário frágil, e cujo governo é um amálgama exótico de partidos que são contra o euro, a moeda europeia teve a maior depreciação em 13 meses enquanto que o rendimento dos títulos soberanos italianos de 10 anos passou dos 3%.

Erdogan está na mira dos mercados porque sua política econômica exagerou nos estímulos que, se produziram um crescimento de 7% em 2017, elevaram a inflação para 16% (junho), muito acima da meta de 5%, e estrangularam o setor externo. Em discussões recentes com o governo turco, o FMI resumiu vulnerabilidades do país: grande necessidade de financiamento externo, dependência de capitais de curto prazo e elevado endividamento das empresas não financeiras em moeda fortes.

O déficit em conta corrente turco é de 5,4% do PIB e continua crescendo. Os números da dívida bruta e líquida do governo - 53,2% e 35,4% do PIB - são bem menores que os do Brasil, por exemplo. Da mesma forma que seu déficit público nominal, de 3% do PIB, é a metade do brasileiro. É a pilha de US$ 293 bilhões de dívida corporativa uma das maiores fragilidades criadas pela depreciação.

A tesoura de déficits comerciais elevados (US$ 47 bilhões em 2017) e na conta de capitais cortou a sustentabilidade da lira e da política econômica que a apoiava. A necessidade bruta de financiamento é de US$ 230 bilhões, pouco mais da metade de curto prazo, de US$ 128,6 bilhões. As reservas caíram para perto de US$ 85 bilhões. O PIB da Turquia é de US$ 850 bilhões.

Chegou-se a isso com um impulso creditício sem amarras, especialmente por parte dos bancos públicos, que detêm 44% do crédito total. Com parco investimento direto externo de 1% do PIB, o governo colocou em pé parcerias público-privadas de US$ 61 bilhões, ou 7% do PIB. Os estímulos foram bancados com taxa de juros nula ou negativa. A inflação disparou e o país cresceu mais que a China no ano passado.

Erdogan, há 15 anos no poder, atribuiu as desgraças recentes a conspiradores e traidores. Sua polícia saiu à caça de "pessoas envolvidas em ações que ponham em risco a confiança na economia", o que se tornou um hábito após o golpe de 2016 - perseguições sistemáticas à oposição e imprensa, expurgo de dezenas de milhares de servidores públicos e membros do Judiciário. A repressão limpou o caminho para a eleição de 2017, na qual Erdogan se elegeu presidente todo poderoso em um país cada vez mais dividido.

O presidente não acredita que tenha de mudar sua política econômica, no que é contestado por investidores e entidades empresariais do país, que sugerem um aperto fiscal e monetário que interrompa a tempestade que se abateu sobre a lira. Erdogan desconversa e prefere operar no campo político, criticando os EUA - que lhe deram motivo, ao elevar tarifas sobre aço e alumínio da Turquia no dia de pior desempenho da lira - e prometendo cortejar "novos aliados", como a Rússia. A Turquia é membro da Otan.

Erdogan não quer ajuda do FMI, crê que juros altos provocam inflação e declarou que a elevação da taxa não ocorrerá "enquanto estiver vivo". O presidente preza a vida e o poder e será forçado a tomar medidas que corrijam o caminho insustentável que designou para a economia turca.

Valor Econômico