terça-feira, 28 de abril de 2015

O fenômeno Lula

Por Ferreira Gullar

Lula é um fenômeno brasileiro equivalente a outros semelhantes ocorridos em diferentes países.
Não é apenas uma personalidade, um fenômeno individual da nossa vida política: é o produto de uma série de fatores nacionais e internacionais, que vão dos conceitos ideológicos às questões sociais tipicamente brasileiras.
O fenômeno Lula não ocorreria em nenhum outro país senão o Brasil. Por isso mesmo, ele difere de Kirchner, de Hugo Chávez ou de Evo Morales porque é fruto de nossa realidade.

Não estou dizendo que seu surgimento foi uma fatalidade e que, portanto, houvesse o que houvesse, ele surgiria aqui e se tornaria presidente da República.

Não, ele poderia não ter surgido ou não ter ido além da liderança sindical no ABC paulista: ter sido eleito presidente do sindicato dos metalúrgicos e ficado nisso. Se foi além, deveu-se às suas qualidades pessoais –a capacidade de liderança, a sagacidade e a esperteza.

Sim, mas essas qualidades só lhe possibilitaram ampliar o poder sobre os liderados e abrir caminho para a vida política porque as circunstâncias históricas o permitiram: por exemplo, o fracasso da aventura guerrilheira que obrigou os Dirceus e Genoínos a se conformarem em fazer política dentro da legalidade, dando origem ao Partido dos Trabalhadores.

Isso abriu caminho para que Lula se tornasse líder não apenas de sindicalistas, mas de um partido operário que aspirava à implantação do socialismo no Brasil.
Ele, Lula, não era socialista, tampouco revolucionário. Nunca lera um livro na vida –conforme alardeou–, muito menos as teorias marxistas. Sucede, porém, que, como líder sindical, dispunha do apoio operário e, consequentemente, da intelectualidade de esquerda que os militantes de classe média não logravam ter.
Isso fez dele não apenas um dirigente sindical, mas um líder operário revolucionário, particularmente na imaginação dos intelectuais que sonhavam com um socialismo até então inviável.

Não por acaso, Mário Pedrosa, Antonio Candido e outros intelectuais de prestígio passaram a ver nele a possibilidade de realização da revolução operária de que já haviam desistido.

Lula tornou-se, portanto, a reencarnação daquele sonho. E assim foi que, embora nada entendesse de marxismo, assumiu o papel de líder da uma nova revolução operária brasileira.

Sucede que, adotando essa imagem e o discurso esquerdista que lhe ensinaram, não conseguia eleger-se presidente da República. Ao percebê-lo, esperto como sempre foi, mudou o discurso, tornou-se o Lulinha paz e amor, e venceu as eleições presidenciais de 2002.

Aí começa a história de um novo Lula, presidente do Brasil, tomado pela megalomania, disposto a nunca mais deixar o poder.
Toma, então, as providências necessárias para isso: de saída, nomeia mais de 20 mil companheiros para funções públicas sem concurso e revoga o decreto de Fernando Henrique Cardoso, conforme o qual só técnicos poderiam ser nomeados para cargos técnicos, o que o impedia Lula de por companheiros e aliados sem qualificação em funções importantes.

E por aí foi. José Dirceu, seu braço direito, em viagem que fez então à Europa, declarou que o PT ficaria no poder por 20 anos no mínimo. Na verdade, Lula, como ele, pensava que ali ficariam para sempre, conforme a prática da esquerda revolucionária.

Um dos instrumentos principais desse projeto de poder era a Petrobras. E ele não demorou a tomá-la nas mãos, nomeando para cargos fundamentais gente do partido e aliados, numa aliança corrupta que, mais tarde, a Operação Lava Jato revelaria.

Tarde demais, porque a essa altura já as trapaças haviam sido consumadas. Por outro lado, dentro de seu projeto de permanência no poder, presenteou aliados políticos com refinarias que nunca foram construídas ou custaram bilhões de reais a mais que o previsto.
Assim, o adversário da privatização fez da Petrobras propriedade sua e de seu partido.

Lula é a expressão brasileira do fenômeno populista que surgiu na América Latina como consequência das ditaduras militares que o anticomunismo norte-americano nos impôs e tornou possível que demagogos como Chávez e Lula se arvorassem em salvadores da pátria.

Ferreira Gullar é Cronista -  Crítico de Arte e Poeta
Folha de S. Paulo  -  26 de abril de 2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

LÍDER DO PSDB JÁ ESTÁ REDIGINDO O PEDIDO DE IMPEACHMENT

Por Carlos Newton

A discussão sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff rachou o PSDB e as principais lideranças estão batendo cabeça. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os senadores José Serra e Aloisio Nunes Ferreira não querem nem ouvir falar no assunto e criticam abertamente a tese, enquanto o presidente do partido, senador Aécio Neves, toma posição a favor e até encomendou um parecer ao jurista Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça.

No meio dessa polêmica interna, o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, perdeu a paciência, reuniu sua bancada na quinta-feira, expôs sua tese, o assunto foi exaustivamente debatido e os deputados tucanos decidiram se desgrudar da direção do partido e apresentar oficialmente o pedido de abertura do processo à presidência da Câmara ainda esta semana.

NÃO É AVENTURA
Há quem julgue que se trata de uma aventura do líder, mas não é bem assim. O deputado Carlos Sampaio é um dos parlamentares mais respeitados do Congresso e tem sólido conhecimento de Direito. Está no quarto mandato consecutivo na Câmara Federal e teve quase 300 mil votos na última eleição.

Seu currículo é impressionante. Entrou na faculdade (PUC de Campinas) aos 17 anos e imediatamente começou a estagiar no Departamento Jurídico do Bradesco. Aos 23 anos foi aprovado, em sétimo lugar, no concurso para promotor de Justiça em Minas Gerais. No ano seguinte, passou em quinto lugar no concurso para promotor de Justiça em São Paulo, onde atuou nas áreas cível e criminal. Depois, se tornou professor de Direito Processual Penal.

HÁ MOTIVOS SUFICIENTES
Carlos Sampaio tem estudado em profundidade a questão jurídica que envolve a presidente Dilma Rousseff e concluiu que já há elementos para apresentar imediatamente o pedido de impeachment, sem necessidade de aguardar novos fatos ou pareceres jurídicos. Fez um minucioso relato aos deputados tucanos, mostrando que já existe a fundamentação jurídica exigida pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha,para aprovar a abertura do processo.

O pedido já está praticamente redigido e Sampaio está dando os retoques finais neste fim de semana. Na terça-feira, terá um encontro com o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, para lhe exibir o arrazoado e informar que nem é necessário aguardar o parecer do jurista Miguel Reale Júnior.


Segundo o deputado, sua intenção é apresentar o pedido de impedimento da presidente na própria terça-feira, após o encontro com Aécio, ou na quarta-feira.
“O que vou dizer ao Aécio é que na visão da bancada não tem mais o que aguardar. A Câmara é quem decide sobre a abertura do impeachment, então o protagonismo tem que ser da bancada da Câmara. Ela tem que tomar uma decisão e a decisão já foi tomada: o impeachment é cabível e não temos que aguardar mais nenhum parecer”, afirmou Sampaio ao repórter Ranier Bragon, da Folha.

NÃO FALTAM MOTIVOS
O líder tucano ainda não revelou os fundamentos jurídicos em que se baseia. E o que não falta são motivos, a partir da responsabilidade de Dilma Rousseff sobre o escândalo na Petrobras, na condição de presidente do Conselho Administrativo, e também as chamadas “pedaladas fiscais”, com as maquiagens realizadas pelo Tesouro Nacional para fechar as contas públicas, o que caracteriza crime de responsabilidade. Além disso existem duas teorias jurídicas já expostas na imprensa por renomados juristas: 1) improbidade administrativa por culpa, tese defendida por Ives Gandra Martins; 2) crime eleitoral devido ao uso de recursos da corrupção na campanha eleitoral de Dilma, tese levantada por Jorge Béja.

Sampaio está tão convicto da procedência de suas razões que já afirmou que irá recorrer ao plenário da Câmara contra eventual recusa ao pedido por parte do presidente Eduardo Cunha. Segundo o Regimento da Câmara, cabe recurso dessa decisão, o que levaria ao plenário a responsabilidade de dar a palavra final sobre a abertura do processo.

A novela está ficando cada vez mais emocionante e sem a menor possibilidade de final feliz para o governo, o PT e o Instituto Lula, a troika da política brasileira.

Carlos Newton  -  editor

Tribuna da Internet – 26/04/15.