segunda-feira, 26 de março de 2018

EUA e países europeus expulsam diplomatas russos

DW

Em resposta a ataque a ex-espião russo no Reino Unido, Estados Unidos anunciam medida contra 60 representantes da Rússia. Decisão semelhante é tomada por 14 países da União Europeia, incluindo Alemanha, Polônia e França.

Em reação ao envenenamento no Reino Unido do ex-espião russo Sergei Skripal, os EUA decidiram expulsar 60 diplomatas da Rússia e fechar o consulado do país em Seattle, divulgou o governo americano nesta segunda-feira (26/03). Na União Europeia (UE), 14 países deram o mesmo passo em relação a diplomatas russos.

A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, afirmou que as medidas, parte de uma ação coordenada contra Moscou, foram tomadas "em resposta ao uso da Rússia de uma arma química de nível militar no solo do Reino Unido". Trata-se da ação mais dura já anunciada pelo governo Donald Trump contra a Rússia. 

Funcionários do governo dos EUA afirmaram que 48 "conhecidos agentes de inteligência” que trabalham nos EUA e 12 outros na missão russa da ONU têm agora sete dias para deixar o país.

Segundo o governo americano, o consulado russo em Seattle será fechado por ser usado para ações de espionagem contra a base naval da Marinha americana de Kitsap e a Boeing. O Canadá também anunciou expulsões de sete diplomatas russos.

Na UE, segundo o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, não são descartados passos adicionais, como mais expulsões, a serem anunciadas nos próximos dias. Alemanha, França, Polônia, Lituânia, República Tcheca e Itália estão os países que anunciaram expulsões de diplomatas russos.
A Alemanha decidiu expulsar quatro diplomatas russos. A decisão de Berlim foi baseada, por um lado, na solidariedade ao Reino Unido e, por outro, na recusa de Moscou em colaborar para o esclarecimento sobre o uso de armas químicas. 

A Alemanha disse que a medida também é uma resposta a um ataque cibernético contra o Ministério do Exterior da Alemanha que se acredita ter sido lançado a partir da Rússia.

A República Tcheca anunciou nesta segunda-feira a expulsão de três diplomatas russos. Polônia e França afirmaram que expulsarão quatro diplomatas cada um. A Lituânia também expulsa quatro diplomatas, e Itália e Holanda, dois diplomatas cada um.

O ministro do Exterior francês, Jean-Yves Le Drian, disse que o ataque de Salisbury foi "uma grave ameaça à nova segurança coletiva e às leis internacionais" e que estava agindo "em solidariedade a nossos parceiros britânicos".

O caso Skripal provocou uma severa crise diplomática entre Rússia e Reino Unido. O ex-espião russo, de 66 anos, e sua filha Yulia, de 33, permanecem internados em estado crítico, mas estável, desde que foram encontrados inconscientes, em 4 de março passado, num banco próximo a um parque na cidade de Salisbury. Moscou nega envolvimento no caso.

Depois que o Reino Unido determinou a expulsão de 23 diplomatas russos, a Rússia respondeu com a mesma medida contra 23 diplomatas britânicos.

Deutsche-Welle

Pátria e Partido: como Xi Jinping se tornou o homem mais poderoso da China

MACARENA VIDAL LIY

Presidente chinês viu sua admissão ao Partido Comunista ser negada sete vezes. Hoje é visto por especialistas como o "novo imperador vermelho"

Sete vezes a resposta foi "não". O jovem Xi Jinping, enviado durante a Revolução Cultural para se reeducar em uma aldeia no norte da China, queria se juntar ao Partido Comunista. A resposta foi sempre a mesma: impossível. Seu pai, Xi Zhongxun, antigo herói da Revolução, tinha caído em desgraça e manchado o nome da família. O futuro presidente só conseguiu na oitava vez, em 1974, depois de persuadir um jovem líder local a respaldar sua candidatura com um café da manhã com ovos fritos. Como contou, essa experiência foi como nascer de novo. "Tornou-se mais vermelho do que a cor vermelha", disse um de seus amigos da época a um diplomata dos Estados Unidos.

Hoje, Xi Jinping é indiscutivelmente o homem mais poderoso da China desde a época de Mao Tsé-Tung. Um líder que, reconhecido e sem limites ao seu mandato, promete marcar época. E sua gestão ainda tem como guia o princípio que adotou naqueles anos setenta: "O Partido, o Governo, o Exército, a sociedade, a educação, o norte, o sul, o leste e o oeste: o Partido está acima tudo".

A sessão anual do Congresso Nacional do Povo, o Legislativo chinês, encerrou-se esta semana após uma quinzena de trabalhos equivalente, na prática, a uma longa coroação do homem a quem alguns especialistas chamam de "o novo imperador vermelho".

Os legisladores aprovaram uma reforma constitucional que permite a ele permanecer no cargo pelo tempo que desejar e converter sua ideologia em parte da lei chinesa. Uma reforma das estruturas governamentais que dão maior poder ao Partido Comunista. Nomeações de conselheiros absolutamente leais aos postos-chave que o cercam. Um novo poder, a Comissão Nacional de Supervisão, situada na hierarquia de comando no mesmo nível do Governo ou do Supremo Tribunal. Todas realizações impensáveis para seus antecessores imediatos e que colocam nas mãos de Xi um poder colossal.

Seus defensores — e dentro da China são muitos — afirmam que são mudanças necessárias. Seu acúmulo de poder, diz a analista Yangmei Xie, da consultoria Gavekal Economics, "não é mera politicagem em benefício próprio", mas "visa tornar a autoridade central mais eficiente e mais capaz de executar sua visão". O líder chinês, explica Xie, atua movido por "uma visão estratégica de longo prazo": levar a China a uma posição de grandeza global. É, segundo o mantra repetido várias vezes nos discursos oficiais, "o sonho chinês do rejuvenescimento da nação".

Outros especialistas sustentam uma visão menos otimista. A concentração de poder aumenta a possibilidade de que sejam tomadas decisões erradas que os líderes de nível inferior não possam ou não se atrevam a corrigir. A eliminação do prazo de permanência no poder pode dar lugar a um processo de sucessão caótico.

"Essas reformas romperam o legado político de Deng Xiaoping", afirma o comentarista político Wu Qiang. "Ele quer estabelecer um Novo Maoísmo, que também tem um componente nacionalista. Sua chamada reforma visa a construção da Grande Nação da China, um Estado-nação. Um Estado, uma nação, um Partido e um líder. É o caminho percorrido pela Espanha de Franco nos anos trinta."

Há ainda muita distância entre o fundador da "Nova China" e Xi Jinping, e a dinâmica sociedade chinesa atual, mais próspera e conectada com o mundo exterior, é muito diferente daquela da Revolução Cultural. Mas vem surgindo o que parece ser um crescente culto à sua personalidade: "Grande Líder do Povo"; "Guia do Povo"; "Núcleo do Partido"; "Timoneiro da nação". É assim que hoje em dia a mídia estatal e altos funcionários o exaltam. Em qualquer cidade da China, as ruas estão repletas de cartazes com seu nome e slogans.

Poucos previam esse rumo dos acontecimentos quando Xi foi nomeado secretário do partido, presidente da Comissão Militar Central e chefe de Estado entre novembro de 2012 e março de 2013. Os analistas ocidentais antecipavam na época que Xi seria um líder relativamente fraco, ou se revelaria um reformista como seu pai, ideólogo do milagre econômico de Shenzhen. Nenhuma das duas ideias se tornou verdadeira.

Ao longo de seus primeiros cinco anos de mandato, gradualmente, este "príncipe" filho de uma das grandes famílias do regime comunista soube ir acumulando uma a uma as rédeas do poder.

A campanha maciça contra a corrupção foi um de seus grandes instrumentos, o que lhe permitiu purgar seus inimigos políticos e desmantelar grandes facções de poder. O ex-chefe do serviço de segurança interna, Zhou Yongkang, foi um dos primeiros "tigres" (membros do alto escalão) a cair. Seguiram-se a ele os principais líderes militares, governadores e reguladores econômicos.

A lei tornou-se outro instrumento para aumentar o controle sobre a sociedade civil: advogados de direitos humanos, feministas, blogueiros loquazes e ativistas trabalhistas foram presos e, em muitos casos, condenados a anos de prisão. Jornalistas, acadêmicos e representantes culturais foram instruídos a manter uma adesão estrita: "o sobrenome de vocês deve ser Partido”, disse Xi em uma visita à sede dos principais meios de comunicação estatais em 2016.

Além da força, também apelou para o épico. Seu lema do "Sonho Chinês" envolve uma poderosa "narrativa moral", que afirma que após um século de abusos por parte do Ocidente, o Partido Comunista está fazendo justiça e, "finalmente, a China será restaurada como uma nação poderosa" no mundo, explica Kerry Brown, diretor do Centro Lau de Estudos Chineses da London School of Economics.

A luta contra a corrupção e o discurso otimista lhe renderam uma popularidade muito forte na China, onde o padrão de vida continua a melhorar e o cidadão comum — ao contrário da Europa — tem a convicção de que amanhã será ainda melhor do que hoje. "A maioria das pessoas vive do jeito que quer", explica Brown, "a política as aborrece e, finalmente, veem um líder aceito no exterior. Elas gostam da aura que agora envolve a China”.

No entanto, até mesmo entre os cidadãos que se declaram fervorosos apoiadores, o fato de os termos de seu mandato terem sido eliminados gera incredulidade. Afinal, Deng instituiu esses limites para evitar a repetição dos excessos do maoísmo e a possibilidade de um líder perpétuo. Xu, funcionário administrativo de 34 anos, dá de ombros. "Eu não quero ver um velho se perpetuar no poder, é claro. Mas se Xi precisa de mais tempo para consertar os problemas do país, e se consertá-los, por que não deixar que faça isso?” 

EL PAÍS