Mike
Whitney
“Obama e o Congresso Republicano já fizeram tudo que podiam
para manter as coisas exatamente como estão: cortam e cortam gastos do Estado,
para assegurar que a economia permaneça o mais fraca possível, porque, em
economia moribunda a inflação não sobe, o Fed não precisa subir taxas de juros,
e continua a chover dinheiro fácil sobre Wall Street.”
Calma. Respirem fundo, todos. Não é outra vez 2007. Os bancos não estão
cheios de $10 trilhões de hipotecas “tóxicas” lastreadas em securities, o
mercado imobiliário não despencou ladeira abaixo, fazendo sumir $8 trilhões; e
o mundo não está à beira de mais um derretimento financeiro monstro. A razão
pela qual os mercados estão girando tão furiosamente ao longo das últimas
semanas é que as ações estão com os preços super inflados, os ganhos das
empresas estão encolhendo, e o Fed ameaça retirar de circulação todas as
bebidas alcoólicas. Como se não bastasse, número considerável de investidores
têm mais em jogo do que podem pagar, e precisam derrubar as ações rápido-rápido,
para reequilibrar os respectivos portfólios.O que significa isso?Significa que
muitos investidores estão afundados até o buraco do olho em dívidas; assim,
quando o mercado desaba, eles têm de vender o máximo que consigam, para
continuar no jogo. É a conhecida “chamada de margem” [orig. margin call], e na
4ª-feira houve uma dessas, das grandes. Os investidores venderam tudo, exceto a
pia da cozinha, num frenesi de venda que jogou o Dow Jones em queda livre de
565 pontos, antes de o índice conseguir puxar-se ele mesmo, a custo, para cima,
de volta a queda de 249 pontos.A razão pela qual se sabe que foi uma chamada de
margem, não um pânico de venda, é que não houve corrida de volta para títulos
do Tesouro dos EUA. Tipicamente, quando investidores pensam que o mundo vai-se
acabar, eles entrincheiram as próprias ações e fazem o que se conhece como “voo
para a segurança”, de volta para a dívida norte-americana. Dessa vez, nada
disso aconteceu.A marca de dez anos dos títulos norte-americanos permaneceu
praticamente imóvel durante a operação das bolsas, embora tenha permanecido
abaixo de 2%, o que sugere que os proprietários de ações calculam que a
economia dos EUA permanecerá sentada na privada ao longo do futuro previsível.
Mas essa já é outra história. O fato é que os investidores não estão “girando”,
estão “liquidando”, porque penduraram tudo exceto a fazenda da família, e agora
têm de vender alguma coisa bem rapidamente, para cobrir suas apostas. Mas, se
pensavam que as ações voltariam a subir em prazo curto, agora terão de tentar
segurar-se pelos próprios cabelos por mais algum tempo.
O que pôs todo mundo muito nervoso foi que o Fed manteve-se mudo nas
coxias, sem dar um pio de encorajamento, motivo pelo qual todo mundo está
tentando sair agora, enquanto ainda podem.
Capisce? [it. no original: “Entenderam?”]
Eis como Rick Santelli, da CNBC, resumiu tudo na 4ª-feira à tarde:
“Basicamente temos em andamento uma chamada marginal global que está em
andamento desde julho do ano passado. Ficou um pouco mais intensa desde que o
Fed anunciou que estava ‘normalizando'; porque, na essência, aumento de 0,25%
(na taxa) não significa coisa alguma, mas a noção de que estamos nos
aproximando de virar a esquina e sair do ‘Grande Experimento’, sim, significa
muito” (Closing Bell Exchange, CNBC).
Em outras palavras, os investidores estão começando a crer que o Fed
continuará seu ciclo de aumentos, que porá ainda maior pressão de queda nas
ações; assim sendo, estão tentando cair fora agora mesmo.
Santelli também acerta ao falar de “normalização”, o que significa que o
Fed tentará levar as taxas de volta ao patamar normal de 4%. Ninguém espera que
aconteça, principalmente porque a fúria e ranger de dentes em Wall Street
seriam insuportáveis. Além disso, o Fed consumiu os últimos sete anos inflando
o preço das ações com os tais de juro-zero e ‘Alívio Quantitativo’. Com certeza
não estourará essa bolha agora, subindo os juros e jogando as ações para o
quinto subsolo, em queda livre. Mesmo assim, muitos investidores acham que o Fed
continuará a aumentar paulatinamente as taxas, para 1% ou mais. E, embora ainda
fique abaixo da inflação, a mudança na percepção, de “dinheiro fácil”, para
“aperto”, faz enorme diferença nas expectativas dos investidores. Como qualquer
economista sabe, decisões de investimentos são modeladas por expectativas.
Ninguém se carrega de ações, se acha que as coisas vão piorar. Trata-se,
afinal, disso.
E então? A recente volatilidade extrema seria precursora do “Grande
Terremoto”?
Provavelmente não, mas não significa que as ações não caiam ainda mais.
Provavelmente cairão; afinal, as condições mudaram dramaticamente. Estávamos
num ambiente no qual lucros gordos, juros baixos e ampla liquidez eram mais ou
menos garantidos. Agora, isso mudou. Ações já não têm preços ‘perfeitos'; de
fato, as desvalorizações estão gradualmente se aproximando de um ponto que
reflete os fundamentos subjacentes. Além disso, sabe-se lá por que motivo, o
Fed parece ansioso por convencer as pessoas de que os aumentos vão persistir.
Assim sendo, eis a questão: Se você retira da festa as bebidas alcoólicas,
ao mesmo tempo em que os ganhos começam a despencar… o que acontece? As ações
caem. Está aí.
A questão que permanece é “até onde caem”? E, dado que S&P mais do que
triplicou depois de ter alcançado o ponto mais baixo em março de 2009, o fundo
pode ser muito fundo, motivo pelo qual os investidores estão tirando mais e
mais fichas da mesa de jogo.
Vale também observar que um dos principais puxadores de preços de ações,
ultimamente têm sido as empresas AWOL [orig. abreviatura para Absent Without
Licence (mil.) e também A Wolf On the Loose (internet, lit. “Lobo solto”)
[NTs]. Falo aqui das empresas que recompram as próprias ações, quero dizer,
quando os chefões recompram ações da própria empresa para recompensar
acionistas e inflar os ‘bônus’ que eles mesmos recebem. Eis o que diz FT
Alphaville:
“China cada vez mais lenta, o preço do petróleo martelado sem parar, o Fed
subiu depressa demais: tudo isso contribui para o início de ano abominável para
os mercados mundiais de ações. Eis mais um naco de carne para o sopão, cortesia
do diretor de Goldman Sachs para ações dos EUA, David Kostin: recompra de ações.
“Uma das razões do desempenho miserável do mercado é que as recompras de
grandes empresas são proibidas no mês antes da distribuição de dividendos.
Qualquer macronoticiário desestabilizador que ocorra durante a janela de
proibição amplifica a volatilidade, porque a maior fonte de demanda de ações
está ausente.”
As recompras de ações nos EUA estão a caminho de seu maior ano desde 2007,
acrescenta ele, estimando $561 bi para o ano cheio de 2015 (net of share
issuance) e um declínio de $400 bi no ano cheio de 2016″ [“Share
buybacks, the markets miss you” (Recompra de ações, os mercados estão com
saudades), FT Alphaville].
Segundo algumas expectativas, as recompras representam 20% de todas as
vendas de ações; claro que a atual seca contribuiu para o recente mergulho das
ações. Assim também, G-Sax Kostin espera forte repique em 2016, para $400 bi.
Enquanto o preço do dinheiro estiver abaixo da inflação, as empresas
continuarão a tomar emprestado o máximo que possam, para empurrar para cima o
preço das próprias ações e embolsarem cada vez mais dinheiro. A ganância sempre
foi péssima conselheira, em decisões sobre investimentos.
Quanto aos problemas chineses: Por mais que seja verdade que a China possa
ter sido o gatilho que disparou os desastres recentes em Wall Street, com
certeza não é a causa deles: a causa é a política monetária fracassada do Fed.
Além do mais, tudo que se diz sobre a China é enormemente exagerado. Como Ed
Lazear disse à CNBC na 4ª-feira:
“Uma grande recessão na China, que durasse dez anos, não custaria aos EUA
mais que 2% do PIB. Ninguém teria uma queda de mercado como a que se vê nesse
momento, por causa da China.”
O economista Dean Baker concorda basicamente com Lazear e diz:
“Nem uma virada aguda na China jogaria a economia dos EUA para baixo.
Nossas exportações totais para a China mal ultrapassam os 0,7% do PIB. Fraqueza
chinesa terá impacto maior em outros parceiros comerciais, especialmente os
pesadamente dependentes de exportações de commodities. Mas mesmo no pior
cenário, estaríamos com um grande obstáculo na economia dos EUA, não no tipo de
falência da demanda que põe toda a economia em recessão” (“Wall Street Rocks!“,
Dean Baker, Smirking Chimp).
Quanto aos preços despencantes do petróleo, também pouco explicam. Sim, se
perderam alguns bons empregos, de salários altíssimos, no setor do petróleo;
investimentos de capital secaram completamente; e muitos dos fornecedores
domésticos darão calotes nos próximos seis meses, por aí. Mas esses calotes
seriam risco significativo para Wall Street, como foram, em 2007-2008, aqueles
trilhões de dólares podres em hipotecas amparadas em securities [orig.
Mortgage-Backed Securities (MBS)] e Collateralized Debt Obligation (CDOs)?
Ah, não, não, de modo algum, não são. Nem chegam perto. Haverá muito
sangue pelas ruas até que tudo isso seja passado, mas o sistema financeiro
atravessará a turbulência, sem colapsar. Quanto a isso, não há dúvidas.
O real perigo é que os preços em queda do petróleo sinalizam a formação de
pressões inflacionárias na economia, que não estão sendo compensadas por
estímulo fiscal adicional. Esse é o problema real, porque significa crescimento
mais lento, menos empregos, salários mais achatados, renda em queda, mais
pressão sobre os serviços sociais e mais economia generalizadamente estagnada.
Mas como já dissemos antes, Obama e o Congresso Republicano já fizeram
tudo que podiam para manter as coisas exatamente como estão: cortam e cortam
gastos do estado, para assegurar que a economia permaneça o mais fraca
possível, porque, em economia moribunda a inflação não sobe, o Fed não precisa
subir taxas de juros e continua a chover dinheiro fácil sobre Wall Street.
Aí está, em poucas linhas, toda essa desgraceira: mate de fome as abelhas
operárias e garanta mais bem-estar aos tubarões dos grandes bancos de
investimento e corretoras.
Esse é o sistema que políticos eleitos acabam de levar praticamente à
perfeição, como mostra relatório recente da Oxfam. Segundo Oxfam: “os 62
bilionários mais ricos possuem hoje o equivalente ao que possui a metade mais
pobre de toda a população da Terra” (Guardian).
Riqueza assim “não é por acaso, mermão“. É política pró-ricos.
Mike Whitney é
um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de
paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como
articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project
Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, um massiva,
silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que
visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente
em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama
and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle
edition.
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