quinta-feira, 2 de março de 2017

O barulho também mata

Nelson Valente

Na antiguidade, os gregos indignados puseram os barulhentos ferreiros para fora das cidades. Hoje, qualquer um tem seu aparelho portátil ou estrondoso som.

O barulho também mata Embora não pareça, o barulho é uma das principais causas de morte no mundo todo, segundo OMS.  Calcula-se que milhares de pessoas morrem anualmente vítimas deste problema. A música, a palavra e a voz consomem grande parte de nossas vidas. Um mundo sem som seria triste, mas seu excesso também não é agradável.

Tudo deve estar na medida certa: assim é o que determina a Organização Mundial da Saúde (OMS), que acaba de elaborar um relatório sobre a poluição acústica denunciando o aumento no número de mortes provocadas pelo barulho ao longo do planeta.

Mas o barulho também nos traz toda uma série de males à nossa vida cotidiana, entre os quais se destacam a perda de capacidade auditiva, insônia, estresse, falta de concentração, problemas cardiovasculares, depressão e até impotência sexual ou problemas no feto das mulheres grávidas.

A OMS adverte que a América Latina está cada vez mais exposta ao barulho. Os altos níveis de barulho também são um problema para as grandes metrópoles no Brasil. Segundo o Médico Neurofisiologista, Fernando Pimentel Souza, membro do Instituto de Pesquisa do Cérebro, UNESCO, Paris, anualmente são perdidos mais de 600.000 anos potenciais de vida sadia por culpa de doenças envolvendo o excesso de barulho. Além disso, a mania dos brasileiros mais jovens de ouvir música alta faz com que quase 2% dos habitantes entre sete e 19 anos já tenham perdido parte de sua capacidade auditiva. Mas o barulho também está por trás dos graves distúrbios do sono que afetam 2% dos paulistanos e de 3% dos casos de tinnitus - um fenômeno de personalidade perceptiva caracterizado por contínuos assobios nos ouvidos - que afetam aos cidadãos brasileiros que vivem nas grandes cidades.

Com isso, é preciso tomar consciência sobre o assunto e denunciar todos aqueles que infringem a lei e colocam em risco a nossa saúde. Em São Paulo, a poluição sonora e o estresse auditivo são a terceira causa de maior incidência de doenças do trabalho, só atrás das devido a agrotóxicos e doenças articulares. Inúmeros trabalhadores vêm-se prejudicados no sono e às voltas com fadiga, redução de produtividade, aumento dos acidentes e de consultas médicas, falta ao trabalho e problemas de relacionamento social e familiar. A poluição química do ar, da água e da terra deixa muitos traços visíveis de contaminação. Muitas doenças e mortes devido a alterações do meio podem ser identificadas por qualquer pessoa. Mas, a poluição sonora, mesmo em níveis exagerados, produz efeitos imediatos moderados. Seus efeitos mais graves vão se implantando com o tempo, como a surdez, que não tarda a se acompanhar às vezes de desesperadores desequilíbrios psíquicos e de doenças físicas degenerativas.

Pelo nível de ruído das nossas cidades e casas, a maioria dos habitantes deve estar sob estresse prolongado, surgindo ou agravando arterioscleroses, problemas de coração e de doenças infecciosas, fazendo inúteis dietas e acabando precocemente com suas vidas. A ativação permanente do sistema nervoso simpático do morador da metrópole pode condicionar negativamente a sua atuação com as agressões. Estamos no limite.

Muitas pessoas procuram se livrar dessa reação, por tornar-se desagradável, usando drogas (tranquilizantes ou cigarro) para bloqueá-la. O nível de ruído em nosso ambiente urbano está quase sempre acima dos limites do equilíbrio, e abre caminho para estresses crônicos.

Certas áreas do cérebro acabam perdendo a sensibilidade a neurotransmissores, rompendo o delicado mecanismo de controle hormonal. Esse processo aparece também no envelhecimento normal e ataca os mais jovens, que se tornam prematuramente velhos num ambiente estressante.

Os efeitos no sono não são menos importantes pela sua nobre função. Os países avançados, ao contrário, mantém o controle da poluição sonora para não prejudicar as atividades psicológicas, mental e física, e seus habitantes, beneficiados, atingiram um nível mais refinado. Mesmo assim esse tipo de poluição subiu para a terceira prioridade ecológica para a próxima década, pela Organização Mundial de Saúde.

O Brasil não deveria permitir tantos danos da poluição sonora nos insuficientes esforços na educação e saúde. Alguma coisa deveria ser feita nas nossas cidades excessivamente barulhentas, hoje com quase 80% da população. As providências seriam: seguir a lei e melhorá-la, diminuir poluição das fontes ruidoras (veículos automotores, aparelhos industriais e eletrodomésticos,etc.)

É necessário reeducar as pessoas a viver em comunidade, porque, a nação, se não é capaz de reparar os danos da poluição sonora, poderia pelo menos preveni-los.

No Brasil, apesar de ter normas para evitar o barulho prejudicial, sejam elas severas ou não, quase ninguém as cumpre, e o problema persiste na maioria dos espaços públicos das metrópoles. Música alta, construções, tráfego de veículos, ofertas de produtos de lojas através de alto-falantes e até a pregação religiosa - que costuma contar com potentes equipamentos de som - fazem parte do panorama em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Curitiba, etc.

Diário do Poder

Conservadores

Márcio Coimbra 

Um dos grupos que mais cresce no Brasil em tempos recentes são os conservadores. Esta é uma tendência que se acentua, além do nosso país, também em outras nações. A saída do Reino Unido da União Europeia, o crescimento da direita na França, a consolidação dos populares na Espanha, além da eleição de Trump nos Estados Unidos deixou claro que existe um movimento sólido e consistente em direção ao conservadorismo político.

Entretanto, ainda há muita confusão sobre quem são os conservadores e o que defendem. Diante da predominância da esquerda por tantas décadas no Brasil, o surgimento de um movimento de direita é enxergado sobretudo com ceticismo. Em princípio há um erro em confundir o regime militar brasileiro com as ideias conservadoras. Nossos governos militares estiveram ao lado do estatismo econômico, especialmente na década de 70, quando praticou políticas muito próximas (senão semelhantes) daquelas introduzidas por Dilma. O resultado foi o mesmo: inflação e recessão.

Os conservadores de hoje não poderiam estar mais dissociados do intervencionismo. Apesar de encontrar alguns nomes que ainda se alinham com tais ideias, a maioria prefere os caminhos do liberalismo econômico, mais próximos do conservadorismo inglês e espanhol, que defendem uma economia aberta e dinâmica, que não esteja refém dos governos que ocupam o poder.

No que tange as mudanças sociais, os conservadores preferem a cautela. Esta nova direita não é avessa a alterações, mas defende que qualquer movimento precisa ser realizado de forma branda, sem radicalismos. A mudança é, portanto, bem-vinda, mas precisa ser absorvida de forma lenta e gradual para não causar solavancos no tecido social. Este novo conservadorismo que surge no Brasil valoriza o papel da família como ente central da sociedade, resguardada pelo império da lei e especialmente pela limitação do poder do Estado. O indivíduo é elemento essencial desta visão política que acredita na meritocracia, empreendedorismo e na responsabilização deste como motor da sociedade.

Este grupo político por muito tempo não possuiu representantes que pudessem vocalizar suas demandas e exigências. O refluxo, entretanto, já começou. Em princípio um pouco desordenado, vem cada vez mais tomando forma e tornando-se consistente. Alguns parlamentares e segmentos políticos já fizeram a opção clara por este discurso e aos poucos vêm redefinindo este termo de acordo com suas cores e convicções.

A naturalidade com que os conservadores vêm ocupando espaço está diretamente ligada à fadiga de material da esquerda, que abalroada pelo desgaste dos últimos governos e denúncias de corrupção, ainda não soube se reinventar. Enquanto isso, agora organizados, os conservadores se preparam para ocupar este espaço no coração dos eleitores, certos de que não existe vácuo de poder.

Jornal O Tempo