quinta-feira, 23 de outubro de 2014

China: “O grande salto para frente” e a revolução cultural – Parte 1



“Existe uma noção muito difundida, mas falsa, de que o comunismo e o socialismo são meramente versões seculares e atualizadas do cristianismo. Como o filósofo russo do Século XIX Vladimir Soloviev apontou, a diferença é que enquanto Jesus instigava seus seguidores a abrir mão de seus bens, os socialistas e os comunistas querem dar os bens dos outros” (livro “Comunismo”, de Richard Pipes, editora Objetiva, 2001).

por Carlos I.S Azambuja

Segundo os cálculos, o comunismo é responsável por cerca  de 100 milhões de mortos. Só na China somam 65 milhões e na União Soviética 20 milhões. A maioria dos chineses foi dizimada pela fome desencadeada a partir do “Grande Salto para a Frente”, a pior fome da História, acompanhada de ondas de canibalismo e de campanhas de terror contra os camponeses acusados de esconder comida.
Na União Soviética, de 1917 a 1953, quando morreu Stalin, os expurgos, a fome, as deportações em massa e o trabalho forçado nos Gulags causaram a morte de 20 milhões de pessoas. Somente a fome de 1921-1922 desatada pelo confisco de alimentos dos camponeses, matou cerca de 5 milhões de pessoas.

Os marxistas-leninistas, considerando sua doutrina uma ciência, tentaram analisar suas experiências e aprender com seus erros, não tanto em relação ao objetivo último do movimento, que permaneceu além da crítica, mas à sua estratégia e táticas. Lênin aprendeu com Marx que para impedir uma contra-revolução tinha de demolir impiedosa e completamente a estrutura institucional do capitalismo.

Observando o revisionismo dos sucessores de Stalin, Mao-Tsetung concluiu que não bastava demolir as instituições. Devia-se mudar o homem. Mudar o ser humano é, evidentemente, o objetivo último do marxismo. Ou melhor, criar um homem-novo. Mas Mao decidiu que isso deveria ser realizado sem demora e empenhou toda a sua vida em concretizar esse objetivo.

Para isso, os comunistas chineses estabeleceram um regime totalitário modelado minuciosamente segundo o soviético. Mas havia diferenças. Uma delas era que enquanto a ditadura soviética, herdeira do czarismo, não se importava muito com o que o povo pensava, contanto que se resignasse e fingisse acreditar, os comunistas chineses estavam determinados a alcançar uma conformidade intelectual e espiritual genuína. 

Essa aspiração estava enraizada no confucionismo, que enfatiza a perfeição moral e deseja que os governos se assentem na virtude moral, ao invés de na mera coerção. Mas foi imediatamente inspirada pelo medo de Mao de que as mentes de seus súditos fossem remodeladas de modo que pudessem assimilar completamente as doutrinas de Marx, Lênin e dele próprio, a China sofreria o mesmo destino da Rússia soviética. Isto é, se tornaria revisionista e abandonaria a fé verdadeira.

Essas premissas de Mao levaram a experimentos fantásticos, todos abortados, com grande perda de vidas humanas e prejuízo do bem-estar das pessoas. Cidadãos chineses, especialmente os intelectuais, suspeitos de defenderem pensamentos anacrônicos ou subversivos foram submetidos à “reeducação” sistemática, muitas vezes em campos de concentração, nos quais eram expostos ao que, apropriadamente, passou a ser chamado de “lavagem cerebral”. Ou seja, a tortura mental com o propósito de quebrar o espírito.

As mesmas suposições também geraram o “Grande Salto para a Frente”, projeto lançado em 1958. Inspirado pelo desejo de demonstrar ao mundo que a China havia encontrado uma maneira melhor e mais rápida de superar o atraso econômico do que a dos russos, Mao, então, declarou ao mundo que a meta da China era a de ultrapassar, em cinco anos, a produção britânica de carvão e aço. Isso seria realizado por mais de meio bilhão de pessoas, arrebanhadas em 24 mil “comunas do povo”. Um exemplo perfeito da disposição de Mao para ignorar a realidade econômica baseava-se no teorema, explicado no “Pequeno Livro Vermelho de Mao” que, durante algum tempo, foi o único disponível na China: “À parte suas outras características, o que mais se destaca sobre os 600 milhões de pessoas da China é serem ‘pobres e vazias’. Talvez isso pareça ruim, mas, na verdade, é bom. A pobreza dá origem ao desejo de mudança, o desejo de ação e o desejo de revolução. Em uma folha de papel em branco, sem nenhuma marca, as letras mais frescas e belas podem ser escritas, os quadros mais belos e frescos podem ser pintados”.
Isso foi dito de uma nação que tinha atrás de si milhares de anos na condição de Estado.

Um slogan do “Grande Salto para a Frente” prometia solenemente: “Ensinaremos o sol e a lua a trocarem de lugar, criaremos um novo paraíso e uma nova terra para o homem”. Portanto, o marxismo, que para seus fundadores era uma doutrina estritamente materialista, nas mãos de Mao-Tsetung, que se proclamou marxista, transformou-se em um idealismo utópico que subordinava a realidade à vontade humana.

O “Grande Salto” provocou tamanho caos econômico que teve de ser abandonado. O custo em vidas humanas foi desconcertante. A fome mais mortífera da História da humanidade sacrificou então 43 milhões de vidas num período de escassez de alimentos que o mundo exterior não teve conhecimento. Mas o fracasso não desencorajou Mao e sua megalomania atingiu dimensões desumanas. Sentindo-se cada vez mais isolado de seu próprio partido, em 1966 lançou mais uma campanha bizarra, dessa vez dirigida contra intelectuais e funcionários do partido que, ele temia, levariam a China pelo mesmo caminho traiçoeiro que a União Soviética havia percorrido. Essa cruzada recrutou jovens urbanos para aGuarda Vermelha a fim de realizarem o que oficialmente foi rotulado de Grande Revolução Cultural. Foi um acontecimento sem precedentes que levou a vida cultural do país à estagnação. Por dez anos – a partir de 1966 até 1976, quando morreu Mao - a China, uma das civilizações mais antigas do mundo, foi devastada por hordas de bárbaros que haviam sido ensinados a considerar tudo o que estava acima de sua compreensão como apto à destruição. 

Em seu auge, todas as escolas foram fechadas e nenhum livro ficou disponível, exceto compêndios e obras de Mao. A Guarda Vermelha atacou intelectuais e obrigou-os a se humilharem publicamente, torturaram e mataram muitos deles. Milhares de funcionários do partido sofreram tratamento semelhante.

Em 1966, Mao lançou a Revolução Cultural. Tratava-se de reduzir a pó os vestígios do passado, de eliminar tudo quanto falasse da alma espiritual ou evocasse a beleza. Os cenários e guarda-roupas da Ópera de Pequim foram queimados. Tentou-se demolir a Grande Muralha e os tijolos arrancados serviram para construir chiqueiros! Era proibido possuir gatos, aves ou flores!

A Revolução Cultural postulava a “ruptura com as idéias e tradições de milênios, arrancando pela raiz a velha ideologia, a antiga cultura, os ancestrais usos e costumes criados por todas as classes de exploradores dos últimos séculos e criar entre as massas uma cultura totalmente nova para os usos e costumes do proletariado”.
À palavra intelectual acrescentava-se sempre o qualificativo fedorento. 

Os professores deviam desfilar por ruas e praças em posições grotescas, latindo como cães, usando orelhas de burro, se auto-denunciando como inimigos de classe. Alguns, sobretudo diretores de colégios, foram mortos. Templos, bibliotecas, museus, pinturas, porcelanas, viraram cacos ou cinzas. A Revolução Cultural foi uma campanha para a implantação dos “valores culturais socialistas”. Para Mao, o marxismo-leninismo deveria adaptar-se à cultura do povo chinês.

Fábricas e universidades foram fechadas a fim de combater osdesvios burgueses e a ideologia fascista da hierarquia do saber. Nas escolas que permaneceram abertas foram abolidas provas e exames, tidos como típicos exemplos da competitividade burguesa.

Os mortos são calculados entre 400 mil a 1 milhão e os encarceramentos em torno de 4 milhões: uma alucinanteninharia, se comparada aos massacres do “Grande Salto para a Frente”! Apesar disso, a Revolução Cultural serviu como fonte de inspiração para algumas revoluções como, por exemplo, a do Camboja e foi, e ainda é, utilizada como modelo por organizações terroristas, como o Sendero Luminoso, no Peru.
Chiang-Ching, mulher de Mao, e mais três fanáticos (Yao Wenyuan, Zhang Chunquiao e Wang Hongwen), grupo que ficou conhecido como o “Bando dos Quatro”, quase arruinou a nação. 

Época vergonhosa em que matilhas de imberbes, fanatizados pela leitura das citações selecionados por Lin-Piao do Livrinho Vermelho do kamarada Mao, tomaram de assalto as ruas ocupando escolas, fábricas e repartições públicas, dando caça àqueles que consideravam contra-revolucionários. A milenar cultura chinesa esteve ameaçada por essas hordas de ultra-radicais insuflados pela madame Ching, uma atriz, terceira mulher de Mao-Tsetung.

A lava humana, formada por milhares de jovens enlouquecidos, marchando ao som de cornetas e tambores, embalados por cantorias revolucionárias, queimava tudo à sua passagem. 
Personagens consagrados do mundo das letras, da educação, da cultura, das ciências e das artes, denunciados comodireitistas conciliadores, foram submetidos a rituais públicos humilhantes, indignos, bestiais.

Arrastados pelas ruas, com cartazes infamantes pendurados no peito, parecendo os sacrificados dos tempos da Santa Inquisição, as vítimas dos Guardas Vermelhos foram socadas e chutadas pelas turbas vociferantes, furiosas. Milhares foram linchados, outros foram afogados em massa em Xangai. Nem mesmo alguns membros da alta hierarquia do partido comunista, considerados dúbios, foram poupados.
Esse frenesi anti-intelectual só cessou com a morte de Mao, em 1976.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net